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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Confissões de um padre morto-Osvaldo Polidoro

 

Índice do Blog  

CONFISSÕES DE UM PADRE MORTO

OSVALDO POLIDORO

(reencarnação de Allan Kardec)

D E U S

Eu Sou a Essência Absoluta, Sou Arquinatural,

Onisciente e Onipresente, Sou a Mente Universal,

Sou a Causa Originária, Sou o Pai Onipotente,

Sou Distinto e Sou o Todo, Eu Sou Ambivalente.

Estou Fora e Dentro, Estou em Cima e em Baixo,

Eu Sou o Todo e a Parte, Eu é que a tudo enfaixo,

Sendo a Divina Essência, Me Revelo também Criação,

E Respiro na Minha Obra, sendo o Todo e a Fração.

Estou em vossas profundezas, sempre a vos Manter,

Pois Sou a vossa Existência, a vossa Razão de Ser,

E Falo no vosso íntimo, e também no vosso exterior,

Estou no cérebro e no coração, porque Sou o Senhor.

Vinde pois a Meu Templo, retornai portanto a Mim,

Estou em vós e no Infinito, Sou Princípio e Sou Fim,

De Minha Mente sois filhos, vós sereis sempre deuses,

E, marchando para a Verdade, ruireis as vossas cruzes.

Não vos entregueis a mistérios, enigmas e rituais,

Eu Quero Verdade e Virtude, nada de “ismos” que tais,

Que de Mim partem as Leis, e, quando nelas crescerdes,

Em Meus Fatos crescereis, para Minhas Glórias terdes.

Eu não Venho e não Vou, Eu sou o Eterno e o Presente,

Sempre Fui e Serei, em vós, a Essência Divina Patente,

A vossa presença é em Mim, e Quero-a plena e crescida,

Acima de simulacros, glorificando em Mim a Eterna Vida.

Abandonando os atrasados e mórbidos encaminhamentos,

Que lembram tempos idólatras e paganismos poeirentos,

Buscai a Mim no Templo Interior, em Virtude e Verdade,

E unidos a Mim tereis, em Mim, a Glória e a Liberdade.

Sempre Fui, Sou e Serei em vós a Fonte de Clemência,

Aguardando a vossa Santidade, na Integral Consciência,

Pois não quero formas e babugens, mas filhos conscientes,

Filhos colaboradores Meus, pela União de Nossas Mentes.


ÍNDICE

INTRODUÇÃO

O SAGRADO LIVRO DA VIDA

NOVA FAMÍLIA

AGILDO, GAMA E SOFIA

AGILDO FAZ UM CONVITE

UMA DESCIDA À TERRA

VIAJANDO PELOS ABISMOS

REGRESSANDO

O REVERSO DA MEDALHA

ENTRE IRMÃOS ENCARNADOS

CONFORME O DITO, ASSIM O FEITO

A CAMINHO DO CÉU

NO DIA SEGUINTE

AO RÉS DO CHÃO

TRINTA DIAS DEPOIS

ESPECIFICANDO

VISÃO DO SENHOR

AO RÉS DA CROSTA

NA TRILHA BENDITA

JASMIM EM CENA

UMA DOUTRINAÇÃO MAIS

HÁ QUE SER DECENTE

MARCANTE VINCULAÇÃO VIBRATÓRIA

AS PORTAS DO MUNDO FÍSICO

JUSTIFICATIVA?

INTRODUÇÃO

Quem vive na carne, como homem educado em moldes espirituais dogmáticos, nunca poderia supor, fossem as condições de vida no mundo espiritual, tão a par com as condições humanas. Imaginar, seja no céu, no inferno ou no purgatório corresponde, para o encarnado em tais tons instruído, a qualquer coisa muito diferente, estado de estar extremamente incorpóreo, condição de estar totalmente inversa à da vida nos quadros da carne. Para o céu ou para o inferno, contanto se fale no pós-morte, arranja-se logo a idéia de lugar especial, de habitat excêntrico. Não pode ser que a mente humana funcione em igualdade de idealização, de concepção, desde tenha que pronunciar-se a respeito daquilo que tenha de ser e acontecer para depois da cancelagem do meio carnal.

Há que ser diferente! Gritaria a razão humana.

Mas, porque um advérbio já é suficiente para por o mundo mental humano em polvorosa, eis que existem verdades que são como são, sem o beneplácito dessa mesma presumida senhora. E, então, amigos, a coisa muda muito. E muda muito porque em nada muda! Quando devia mudar-se, isto é, quando devia tomar aquela feição por nós imaginada, e desejada, ainda que nas piores hipóteses, eis que tudo continua como dantes. Uma carne mais densa fica para trás? É apenas sinal de que outra menos densa lhe estava à espreita. Reclamava-lhe o posto, simplesmente. Tinha que ser. E é toda a explicação. E para que mais explicação?

Essa história de explicar é uma história muito complicada e cheia de tremendas incongruências e responsabilidades. Desde que o mundo é mundo e talvez até consiga sê-lo, gente haverá falando em nome da autoridade, querendo ser o tal que fala em seu nome. Mas, sobre as afirmativas humanas, precisamente por serem humanas, pairarão outras e outras afirmativas. Sobre isso, amigos, prefiro fazer silencioso respeito. Não por misticismo; mas por consciência da mediocridade.

Como posso rir dos mestres religiosos do mundo! Que não se limitam a dizer como Deus é, mas querem à viva força imporem-lhe modo de ser e de conduta, em face dos problemas de Moral e de Justiça. Sofro em mim a dor de fazer pouco por mim mesmo, como cidadão do mundo; mas, muito mais sofreria pelo próprio Deus, tivesse que ser Ele, como quisesse ou fosse do gosto do mais bem intencionado dos seus propagandistas entre as gentes. Cada um crê na sua crença; e se diz esclarecido a ponto de afirmar de pés juntos, ter de posse o retrato de Deus, com toda a configuração de Suas veleidades em geral.

E a humanidade assim vive a ser orientada. Por ser igual o conduzido ao condutor, aquele que o conduz, eis que nada o mundo em mar sectário, eis que temos os homens entregues ao culto do mais ferrenho espírito de facciosidade. Medram as seitas e com elas as estultices mais agravantes para o pós-morte da chamada criatura. Porque o homem que deixa o plano da carne empanturrado de idéias exclusivistas, de pretensos favoritismos da parte do Supremo Espírito, esse, só por isso, tem contra si o princípio de equilíbrio que rege o universo em geral. Porque há uma LEI geral de equilíbrio, que, fracionando-se ao infinito, a tudo e todos abrange com o seu tentáculo. É tolice exigir exclusivamente perante a Suprema Judicatura, por alegar preponderância sectária ou mesmo real conhecimento da VERDADE. E isso pelo simples fato de não se abalar ela pelo fanatismo de quem quer, nem pelo simples teorismo do seu mais arguto apologista.

Que é a VERDADE?

A VERDADE que é não é a que salva, pois por ser simplesmente VERDADE não confere favor por aceitação teórica, apenas. Então, qual a VERDADE que liberta? A VERDADE que liberta é aquela que o homem pratica, desde que em consonância com aquela outra, a fundamental. Por isso, e simplesmente por isso, tanto melhor para aquele com quem esteja, em teoria e prática decentes, a melhor verdade, a simples verdade com “v” minúsculo.

Todavia, como facilmente se reconhece, o mundo está inçado de religiosismos salvadores e absolvicionistas. Isso, porém, não impede que os tredais do espaço se junquem à custa de seus adeptos. Como é, ou como chega a ser ridícula a atitude daquele que deixa a carne mais densa, embebedado pela cantilena das sereias do milagrismo, dos favores sectários, dos conchavismos renitentes. Porque, assim o fornecedor de bugigangas salvacionistas cessa a fala, a lei cíclica vence, colocando o ser imortal noutro continente vibratório, já a LEI de equilíbrio entra em função, e especificamente, de dentro para fora do mesmo ser, aquilatando segundo as obras, segundo as ações diuturnas no trato social, e não segundo os escapulários com que se armou, pretendendo com isso colocar-se acima ou à margem da mesma LEI.

Tudo o que existe está embutido num princípio de CAUSA e EFEITO, que por isso mesmo significa universalidade. Há que atender, portanto, para o tônus vibratório interno, para o melhor em intensidade. E sem cuidar bem, por assim dizer, das coisas do cérebro e do coração, nada feito! O homem, pois, é um ser inteligentizável por natureza, por cuja razão subirá na escala de si mesmo, no âmbito das leis gerais de harmonia. Sem, porém, subir em PUREZA e SABEDORIA, ninguém conte com céu algum! Os cerimoniais religiosos podem ser coisas divertidas; menos, no entanto, libertadores de consciências. Instruir o cérebro e sensibilizar o coração, eis a medida geral. Direis que teremos assim apenas o homem teórico? Não é real. Ninguém se torna rico de conhecimento e grande em sentimentos nobre, sem praticar tais valores; porque para ser nobre não basta ter só vontade. Faz-se preciso saber e aplicar. O senso de nobreza instiga no sentido de cada vez mais e melhor aplicação. O homem veramente nobre não é feliz na ociosidade, bem assim como sabe bem que, para cada vez mais e melhor poder ser útil, tanto mais precisa saber. É, pois, aquele que avança perenemente em busca de mais subidos valores, quer de ordem moral, quer científicos, na consciência de que, para dar, para aplicar, é preciso ter.

E em que dédalos se perdeu ou se perde, aquele que viveu ou vive, confiante nas expressões salvacionistas concentradas nos escapulários seitistas? Sou uma testemunha dessa falta de lógica natural. Sim, de lógica natural, pois os inventos salvadores humanos não alcançam impressionar as leis de harmonia, em que se espraia pelo infinito a LEI GERAL DE EQUILÍBRIO, a Lei de Deus, a quem o homem sempre procurou dar configuração idólatra e situação externa. A lógica de fato, embora em rudimentos de expressão, não se confunde ante a visão total; o pingo d’água não teme os sete mares, por serem entre si similares. A infusibilidade em valores os torna unidade perfeita.

E os escapulários seitistas conseguem, assim, tornarem-se infusos à LEI GERAL DE EQUILÍBRIO? Os simulacros comprados aos homens ou aos credos conseguem forçar o céu, por assim dizer? Em nome de que ginásticas adquiridas no mundo pode um espírito reclamar gozos nos rincões da morte? Não pode falar em nome dos sacramentismos exteriores, porque a Justiça Suprema não precisa de testemunhos estranhos; e não adianta alegar a autoridade dos vendedores de tais simulacros, porque eles mesmo nada poderão alegar em defesa própria.

Quando aleguei minha condição de padre de certa igreja, ouvi resposta assim:

– Muito embora ainda possam prevalecer as atenuantes decorrentes da falta de melhores conhecimentos, é de saber-se que o simples fato de viver à custa da Religião é imoralidade. Não procure, portanto, eximir-se de culpa. Não terá o que dizer, a fim de pôr-se melhor em face das insuficiências íntimas. O melhor é compenetrar-se do que lhe falta e fazer por conquistar. O céu, como o salientou o Divino Mestre, é de ordem íntima. E para tê-lo, não há outro recurso sem ser despertá-lo. Não acuse o quer seja; seria perder tempo. Ou quereria informar ao Deus interno?

Égas, o meu instrutor, passou a sorrir, vendo-me perplexo. Eu nada entendia, em sã razão, de tudo isso que é muito do conhecimento dos espíritas. Deus me era exterior e tudo se conseguia junto Dele, através prosternações de toda ordem. Compreendia o valor dos atos decentes, mas como complemento às obrigações seitistas ou às práticas sacramentais. Antes da Lei de Deus, importava estivesse o catecismo sectário. Acima das elevadas virtudes do espírito, deviam pairar os cânones eclesiásticos. Assim, bem assim é que tinha sido educado mentalmente. De pai e mãe recebi tais encomendas; e mais tarde foi isso que me inculcaram os mestres em teologia. Afinal, quem lê, como deve ler? Quem ouve, como deve ouvir? E quem se emprega o que deve fazer, como deve agir, sem ser dando fiel guarida aos encargos subestimados? Por isso mesmo, que tinha a fazer, sem ser sofrer toda e qualquer impulsividade ablaqueante?

E o bom Égas, instrutor consciente, e que também havia vindo do mundo nas mesmas condições em que eu vim, enlaçando-me pela cintura, e muito mais pelo coração falou com serenidade:

– Adão, não julgue a Sabedoria Divina pelo que sabe. Essa tolice fica bem lá pelo mundo da carne e aqui nos nossos planos inferiores de vida. Aqueles que se julgam donos ou de posse de toda a VERDADE, esses mesmos estão-se a indicar como alheios a ela, por isso mesmo pensarem sobre si mesmos. De tanto pensar em um Deus à margem da chamada Criação, o homem se isola de si mesmo, marchando à cata de formalismos exteriores, como sendo a regra para a conquista dos bens eternos. Deus, amigo Adão, é íntimo a nós e a tudo. Ir bem ao Supremo Espírito, sem despertar os divinos dotes internos, isso jamais será possível.

– E as ações de graça?!... – balbuciei, movido pelo recalque.

– São muito válidas desde que praticadas junto dos irmãos em origens e destinos, em forma de auxílio de fato...

– Mas não nos ouvia Deus?!... – tornei, angustiado, como que a sentir que se me derretia sob os pés, a rigidez do alicerce mais bem construído.

– Nada há para fazer ouvir fora meu amigo; tudo é questão de despertar dentro. Tão má é a educação recebida, tão infeliz a doutrina levantada pelos homens no lugar da do Senhor, que ao ingressarmos neste plano de vida pretendemos, e a todo custo, que nos valha Deus espiritualmente, por aquilo com que nos beneficiamos materialmente. Convém, pois, lembrar, que Deus é íntimo e para falar-lhe de fato, só mesmo pela linguagem do amor ao próximo. E para amar ao próximo, amigo Adão, só mesmo cooperando em suas necessidades evolutíveis. Fazer dele, pela fé que deposita num Supremo Senhor, motivo de exploração, isso é imoralidade. Além de ser imoralidade é truncamento do princípio inteligente. Pois não é certo que nos fizemos junto dele, intermediários perante Deus? No entanto, que se pretende ao colocá-lo distante de Deus, senão viver à custa de sua ignorância? O vendeiro, o quitandeiro, o dentista, não fazem negócio muito mais honesto?

– Mas assim nos ensinaram!... – argumentei, sofrido.

– Sim, os homens... Deus, porém, não ensinou assim pelos seus arautos mais credenciados. Como pode ficar sabendo bem, por confrontar, nada há em nossa igreja lá do mundo, e que aqui vive intensamente nos planos inferiores, daquilo que o Divino Mestre viveu nas ruas, nas praças e nos desertos da Palestina. Enquanto Ele filtrou a Vontade de Deus, por sintonização, e isto por despertar interno, que faz a nossa Igreja, sem ser que em Seu nome impõe formalismos vãos e caros? Que há na nossa igreja que se pareça com os dons intimamente despertos e aplicados pelo Mestre, no sentido de curar, de expelir maus espíritos, de manter contato com os bons, enfim, de tudo aquilo que fez e recomendou prosseguissem os homens fazendo? Tudo, no Cristo, não foi exercício contínuo no sentido de intercâmbio com o mundo dos espíritos? E não salientou sempre que o Pai Lhe era uno? E não repetiu que o céu era íntimo ao homem? E não afirmou sempre que Deus era Seu Pai e nosso Pai? E não reclamou sempre um amor a Deus à base de toda a inteligência e de todo o coração? E não deixou como pedido máximo o amor máximo entre irmãos? E por vivermos nós à custa dos irmãos, por terem uma fé, e por lhes impormos simulacros vãos, podemos dizer que somos mestres em as coisas do espírito? Falsificar os ensinos vividos por Jesus, à custa de seus poderes internos despertos, é porventura Cristianismo?

Estava eu aturdido. De fato, entre o que diz o Evangelho, que Jesus Cristo fez e pediu repetissem sempre que possível os homens, e aquilo que fazia e fez a Igreja de quem eu era servo fiel, toda a diferença existe. Rótulo não é essência. Falar em nome do bom vinho não é garantia contra a venda do vinho falsificado. E contra os argumentos de Égas, tinha a antepor que arrazoados? Quem me teria lançado nas dores de um país onde vendavais açulavam a tudo e todos, de manhã à noite? Que poder me teria para ali arremetido, no seio daquela gentalha que vivia para blasfemar contra Deus e contra tudo e todos? Teria sido a argumentação de Égas, o seu libelo contra a Igreja? Não, pois ele fora, apenas, um daqueles que compunham a caravana libertadora. E a palavra usada fora a mais simples e irretorquível, a mais fiel tradutora de uma realidade que será eterna:

– Adão, levante-se em seu pensar, erga-se em seu sentir, porque chegou para você a hora marcada pela Vontade Soberana de Deus, para que goze da paz, aquilo de que se fez merecedor, por purgação já experimentada.

E como tinha aprendido a blasfemar, também, respondi-lhe:

– Esse Deus, então, para que faça alguma coisa é preciso que eu lhe confira as vantagens? Ele não pode fazer, por Si mesmo, independente de meus sofrimentos?

– Adão – repetiu o mentor – quem não está bem aqui é por sua própria conta. Na terra o fator missão pode colocar o inocente no pelourinho; aqui, isso não se dá. E se dizemos que é hora, é porque a aferição se dá no íntimo do ser, por re-equilíbrio. A dor foi, como o fogo, retemperante. Todavia, Adão, se lhe não aprouver a conquista de melhor posto, daqui nos iremos, prometendo voltar ao término de outro período cíclico-purgatorial. Porque nós somos trabalhadores do Senhor, não diretamente, mas por escala hierárquica. E assim que chegue a hora, de um direito qualquer ser garantido, move-se a máquina jurídica organizada, em favor de quem deve ser movida. Nunca, porém, a ponto de espezinhar vontades. O que se quer é repercussão vibratória, é auxílio à ação, para que com menos trabalho se tire mais proveito.

– Consultaram-me para me mandarem para esta terra de gente bruta e ventanias incessantes? Há quantos anos estou aqui?... Dezenas! Dezenas!...

E a voz serena tornava a doutrinar:

– Ninguém consultou sua vontade, porque sua vontade estava expressa na organização do seu caráter. O homem lavra em si sentença, pelas obras, em padrão vibratório que se faz. O Judiciário Supremo deixa a cargo do próprio homem a formação do julgamento específico. Como se fez o ser, precisamente assim se tem. Portanto, amigo Adão, não é de Deus que vem libertação ou condenação para quem quer que seja. No homem estão os elementos de edificação e a vontade de pô-los em função, assim como um fazendeiro dá ao trabalhador, que é racional e dispõe de órgãos e vontade, ferramenta e seara onde aplicar-se. O homem que pensa ganhar o céu de favor, ou por comendas compradas ou vendidas, é como o trabalhador que se dispensa da razão, dos órgãos e da vontade, desprezando ainda, por cima, a ferramenta e a seara onde lavrar. Sofrerá inanição, por certo, por auto insuficiência.

Fiz-lhe ver que não podia pensar bem, ao que ele argumentou, com sublime inflexão de voz:

– E quem lhe pede para que perca tempo, amigo Adão, com delongas contra a Soberana Lei, que não pode ser falha por ser interior a tudo e todos? Nós o estamos convidando a sair daqui deste triste país, sem exigir mais do que pensamento de respeito pelas coisas superiores da VIDA.

E com eles saí andando, andando, mas andando pelo espaço em fora, até me ver noutra terra, noutro país, onde um sol muito lindo enfeitava uma exuberante natureza, e onde uma gente muito amiga tornava a vida uma doce embalagem do Senhor. E foi ali que senti imensa necessidade de dormir. E me deram de tudo para fazer, tempo, casa, leito, livros, amizades, atenções, etc.

O SAGRADO LIVRO DA VIDA

Nos livros dos homens estão incisos os erros e os acertos inerentes aos homens; no SAGRADO LIVRO DA VIDA estão as marcas do próprio Deus. Onde haja natureza há expressão de lei ordenante. E o homem pode estudar e ficar sabendo coisas que muito lhe valerão. Porque as leis naturais, por ínfimas que sejam em grau de expoença, dizem respeito à Harmonia do Todo. Isso mesmo não se dá com o que é de feitura humana, em virtude de o homem só poder agir por força de concepção pessoal, concepção que, muitas vezes, envereda aos abismos.

Quando acordei, pois, a primeira coisa que fiz foi sondar na biblioteca uma obra que me interessasse. E vi uma cujo título era: “O MONISMO DIVINO E O HOMEM”. Era um livrinho pequenino, coisa de umas cento e vinte páginas, apenas. E em o tendo folheado às pressas, notei-lhe sentenças fortes, afirmando sempre e não cogitando jamais. Nada de argumentação hipotética; tudo cabalmente afirmado. O que salientava era a necessidade de aprofundagem na matéria, invasão pelos seus campos infindos de ser. Convidava ao saber mais, para mais poder saber, para em mais sabendo tanto mais poder ser útil. Uma sentença dizia:

“Todo homem tem em si o céu e o caminho que a ele conduz.”

Outra sentença dizia:

“Compreender isso, e fazer com que os semelhantes disso tenham conhecimento, e fazer que pelo caminho invadam o próprio céu, eis a Religião.”

Ainda dizia uma outra:

“O mal das Religiões é distanciar o homem de Deus e do céu interno, para que os seus padres se locupletem.”

Perdido no meio de um largo comentário, eis um trecho interessante a que pude ler:

“O espírito individualizado é uma força da natureza; a natureza é a parte manifesta de Deus. Logo, por natureza somos manifestação divina e portadores de sagrados dotes íntimos. Como patentear tais dotes? Como despertar tais dons para i-los gozando? Não há outro recurso sem ser o culto mais intensivo das virtudes cristãs. E Jesus Cristo não perdeu tempo com a feitura de atos superficiais, tendo-se antes dedicado ao trabalho de ser útil, humanamente bom, plantando-se ao lado dos chaguentos, dos coxos, dos leprosos, dos cegos, dos comprimidos por espíritos sofredores, dos perseguidos pelos mandões do mundo. O Cristo não acenou jamais a um céu que fosse conquistável por meio de baboseiras formais, de bajulagens rendosas. Para o Cristo, pois, o caminho do céu foi o culto do mais sadio humanismo. Não distraiu a quem quer com idolatrias estultas, com pseudos atos salvacionistas. Sua vida inteira foi um modelo de fidelidade às pungentes necessidades da alma humana. Não foi dizer aos órfãos e às viúvas, ou a qualquer outro sofrido do mundo, que comprando sacramentos ganhariam o céu ou remediariam a situação; o que fez foi dizer que a vitória estava era no conhecimento da VERDADE, pois tudo se dá e passa por questão de CAUSA E EFEITO. Explicava com lógica irrefutável e servia como irmão, metendo a mão nas chagas humanas. No entanto, em nome do Cristo, que fazem os donos de credos? Falam no Cristo, inventam escapulários, vivem à custa da fé do próximo, metendo a mão no suor dos irmãos. E que diremos da Revelação, da pedra sobre a qual edificou o Senhor o arcabouço doutrinário? Essa foi banida, do quarto século em diante, quando o catolicismo se organizou sob o pálio de Constantino, para que o culto do paganismo pudesse ter curso livre e os seus padres mercado franco. Onde está, em tal Igreja, o culto daqueles dons mediúnicos de que Paulo faz fulgurante comentário, no capítulo doze de sua primeira carta aos Coríntios? E o sistema de reunião, para culto desses dons intermediários, exposto dois capítulos adiante? E que direitos tinham para truncarem assim a doutrina do Cristo em seu curso de espiritualização da humanidade?”

Pouco adiante, lia-se também:

“Nunca, porém, a treva venceria a luz. A VERDADE jamais seria banida eternamente pela mentira. E o Senhor ordena, no presente, que os seus mensageiros falem aos homens pelo conduto mediúnico, por aqueles dons e processo de reunião citados por Paulo. Para tanto, preposto espírito encarnou, arrastando em após de si legiões de amigos e servos do BEM. Com as suas instruções e o trabalho das legiões do Senhor, a VERDADE revolve ao mundo mental humano, preparando-o para os dias que hão de vir.”

Abaixo se lia, ainda:

“É sabido que nos céus inferiores da terra, o número elevadíssimo de humanidades palmilha sendas de ignorantismo e dores sem conta. Do mesmo modo, sabe-se que só pelo conhecimento da VERDADE se obterá a libertação de tais irmãos. Compenetrado, pois, do imenso cabedal de recursos que o mediunismo significa, apela o Senhor, pelos Seus arautos, à boa vontade de quantos queiram formar na coluna dos apóstolos da renovação humana. Sem saber do melhor ninguém é mais responsável. É preciso o conhecimento para que a responsabilidade surja espontaneamente. E a finalidade do Consolador restaurado é essa. Fazer conhecer para tornar responsável, e tornar responsável, para que das obras repontem os gozos pela cooperação no serviço de ascensão das almas irmãs.”

Rematava o livro estas linhas:

“Nenhum ato, pois, é mais religioso do que aquele que deriva de informar aos semelhantes sobre sua divinal origem e gloriosa finalidade, incutindo sempre que é dos recursos internos que a glória deve levantar-se. Todo e qualquer ato dito ou tido como religioso, desde que afastando o espírito de si mesmo, de seus deveres de humanidade, para lembrar-lhe obrigações de ordem externa, formais e idólatras, constitui suborno ao espírito do Evangelho, à Doutrina do Cristo.”

Ao por, portanto, os pés para fora da porta, fí-lo advertido sobre questão altamente séria. No fundo, porém, dizia a mim mesmo que havia herdado longos anos de peregrinação pelos sulcos angustos do plano astral, à custa de que, senão do que havia feito e ensinado no mundo? De duas uma – ou os meus feitos eram falhos perante a VERDADE ou a Divina Justiça é que falhava. E não tive dúvidas em optar pelo mais justo.

NOVA FAMÍLIA

Laços de sangue, laços intelectuais, laços morais e tantos outros possíveis liames unem os seres entre si, pessoal ou coletivamente. No seio daquela família dei-me bem com todos, espontaneamente. Às vezes me parecia que nossas idéias iriam colidir; mas, com uma lógica de pasmar e bondade extrema, eis que punham minhas idéias contra o barranco. Doces anos vivi engastado no seio daquela família, cuja lembrança me traz ao coração sublime enlevo.

Foi naquele ambiente de paz e suavidade cristã, onde aprendi que o pensar em ser mais e melhor que os outros, por ostentar título outorgado por instituição humana, além de nada significar como valor de fato, ainda acarreta séria cumplicidade em face das corrupções, mesmo agindo sinceramente, mesmo desconhecendo os porquês delituosos. Nenhum título, nenhuma outorga humana, jamais garantirá a quem quer que seja o vir encontrar aqui garantia em posto hierárquico superior.

Faz uns trinta e cinco anos que fui liberto daquele país de ventos e humanidade torturantes. E já me encontrei, por centenas de vezes, com criatura a quem pensei ter, no mundo, ensinado o caminho do Senhor, através os sortilégios, que disso além não vão, os formalismos igrejísticos do mundo. O certo é, porém, que essa gente é e pode mais do que eu, por superioridade evolutiva. Isso quer dizer, então, que os igrejismos do mundo, além de nada fazerem pelos inferiores em hierarquia, por lhes atrofiar o poder pensante com os seus dogmas e acenos infernais, ainda se tornam caminho de corrupção para os mais evoluídos!

A morte confunde os presumidos e exalta os simples de coração. Os proprietários de religiões perdem posses e títulos, porque em geral os prezam em demasia, os querem tornar instrumentos perante os quais o próprio Deus se curve. Como disse bem certo pensador, os religiosismos não querem fazer a Vontade de Deus, mas sim querem que Deus lhes faça a criminosa vontade.

Resumindo, há uma dolorosa verdade por confessar; é que vimos para aqui com recalques tais, com lastros tais de pretensos direitos, que ao topar com a negação dos mesmos, nos damos mais à rebeldia que ao reconhecimento do erro vivido. Nas zonas infernais, onde o despotismo e o mal campeiam à vontade, títulos fazem-se respeitar e violentamente. As Igrejas do mundo carnal possuem aqui suas duplicatas temíveis, seu sustentáculo tremendo! Dentro das casas onde mercadejam a valer, e donde infundiram o erro às humanidades, sofrem dolorosamente milhares de duendes clericais. Seguem a uns e outros, muitas vezes, surrupiando de uns e outros fluídos retemperantes. Esfarrapados, sujos, seminus, legiões deles acotovelam-se aos fiéis encarnados, nem de longe sonhando com os postos gloriosos com que se julgavam de direito, por fazerem da fé dos semelhantes um meio de vida e instrumento de corrupção doutrinária.

Enfim, as prerrogativas do mundo aqui não prevalecem; todavia, por que não dizê-lo? Elas deixam largo crédito no mundo, a bem de quem as conduza, quer em virtude da ignorância de uns, quer em vista do cinismo de outros. É de bom alvitre, porém, ninguém se iluda com falsos apanágios. Porque duro é ter de enfrentar uma situação antípoda àquela tão profundamente cultivada, no mundo das fantasias interiores. E para fiel da balança tomemos este pensamento por axioma:

“Boa religião é todo o bem que se faça ao semelhante, indo mesmo ao sacrifício, se possível e necessário for, mormente em se tratando de lhe amparar com todo o carinho, aos menores interesses de sua emancipação espiritual.”

Quem assim pensar, por certo que se não dará ao triste mister de fazer dos sentimentos deístas do seu próximo, um meio de vida. Porque a Deus ninguém iludiria, em Seu nome fazendo mercâncias; pode-se, porém, iludir muito bem aquele que tributando ao Supremo Poder uma obrigação de respeito, nos tome por autoridade intermediária. É certo que esta autoridade é infinitamente discutível, o quanto é infinitamente, deploravelmente oca de provas. Assim como o feiticeiro pode dar provas de suas artes, mas deixando de parte o sentido moral das mesmas, assim também o vendilhão de qualquer templo ou credo, jamais poderia provar as vantagens de sua mercadoria. Há uma vantagem imediata, quer para quem venda, quer para quem compre; quem vende recebe dinheiro e goza dos títulos e veleidades decorrentes, e quem compra se alivia por pouco na satisfação que o gesto tradicional e recalcado consigo traz. Mas, nem um e nem outro podem falar em nome da Suprema Judicatura, da Última Palavra. A mercância fica como um engodo entre partes entre si interessadas, enquanto o tempo de encarnação durar, enquanto espesso véu encobrir a visão da realidade.

Naqueles dias, pois, sentia o céu despertar dentro de mim. E quem o forçava a tanto era a amizade daquela gente simples e feliz, com quem passei a conviver. O tom hierárquico do plano correspondia bem ao da terra, em certos pontos. Um deles, por exemplo, era o que concernia aos bens necessários à mantenência da vida física e indumentária. Outro, era o que dizia respeito aos divertimentos, pois, ao que não produzisse, não se lhe permitia tomar parte em divertimentos organizados. Como será fácil identificar, o plano era de relativa prova. E o será ainda, pois que o deixei e não mais o quis ver, de vez que, aos que lá estimava, também outros rumos foram indicados.

Com certa soma de serviços, determinados direitos em passeios e regalias que tais. Eis o retrato político-social-econômico da região. Quanto ao sistema governativo, experimentava-se ali o menos pessoal possível. Comissões técnicas organizavam programas específicos; e um conselho administrativo aplicava-os. Pessoalismos não prevaleciam; isto é, prevaleciam o menos possível. Para os diferentes ramos de aplicação técnico-legislo-administrativa, indicados eram elementos de reconhecido merecimento na matéria. E a lei dos terços prevalecia para todos os efeitos, em matéria de sucessão. Onde quer houvesse necessidade de organização de programa, só elementos técnicos eram indicados à votação. E para a função máxima, a executiva, também elementos experimentados, principalmente do ponto de vista moral. Sete eram os presidentes, sendo que entre si dividiam eqüitativamente a presidência em exercício e tempo. Nunca faltava um conselho superiormente capaz, nunca poderia tornar-se um caso executivo em oportunidade de chicana partidária. Encarava-se o homem, sua honorabilidade e capacidade técnica; o teor partidário a ninguém interessava.

Economicamente, ninguém acumulava, ninguém tinha esse direito. E é fácil saber-se que, onde todos trabalham, onde ninguém acumula e onde não há advocacia administrativa, todos podem viver bem. O plano, pois, era verdadeiramente símile da terra em certos pontos; economicamente, porém, não se via a um cidadão como miserável e a outro como perdulário.

Educação, instrução e aplicação do homem? Sempre lembrando que todos eram iguais perante a Suprema Lei, em origens e destinos. Mas a regra “A CADA UM SEGUNDO AS SUAS OBRAS”, jamais deixaria de intervir na vida pública e privada de todos os cidadãos da região. E como nos planos felizes, embora relativamente inferiores, o mérito reponta do ser espontaneamente, com um nada de esforço, a qualquer seria dado subentender, o melhor por fazer e querer. De qualquer forma, para efeito qualquer, educacional e administrativamente, tudo obedecia a um princípio – isentar a formação mental do ser de toda e qualquer sabuja partidarista, sectária ou personalista.

O complexo dos ângulos de visão, para todos os sentidos de aplicação do pensamento, não me deixa hoje confuso. Nos planos inferiores, experimentados são todos os sistemas imaginados ideais. A terra se perderia de vista, com relação ao que se passa por aqui, nas esferas onde o sentido de duplicata paira em muito de par com aquilo que por aí se conhece. O que aqui se repete, no que diz respeito ao que seja inferior ou superior, de muito suplanta ao que aí se conhece. As intensidades daqui, no bem ou no mal e na amplidão dos ambientes, onde deixaria a terra? O que não difere, isso sim, é a natureza do porquê, é o fim em vista, é o mérito da ação, é o relativismo da possibilidade. Não faltam os que julgam isto como sendo a “perfeição” em todos os sentidos. Pois saibam que nada temos de perfeito em sentido algum; que somos, na soma dos planos e nos problemas por solver, acanhados, bem acanhados estudantes. Ninguém, pois, despreze o torrão encarnacionista. Gente há por aqui, que em desencarnando, em deixando um corpo no mundo das formas, outro em piores condições ganhou. E ninguém ganhou um de favor, diáfano, isento de obrigações para com leis ambientais. Gradativo como aí, assim é aqui o problema da evolução, do conhecimento, das lutas ascensionais.

O espírito é sempre um funcionário, sendo um grau hierárquico ou um plano de trabalho, apenas condições exigidas para o seu bem. Ninguém é mais na carne, por estar encarnado, assim como menos ou mais o não será, quem por aqui adeje. Basta cada qual se compenetre da função, tomando medidas para não falhar em virtude da possível ou indiscutível pressão ambiental. De resto, a não ser nos excelsos planos, que os não conheço, infelizmente, por toda parte impera o princípio de causa e efeito. E quem fala nessa augusta regra, fala em tudo que diga respeito aos direitos, mas direitos relativos aos deveres executados. E quem tem deveres, por certo que os tem de maneira, circunstancial, isto é, segundo limites e possibilidades relativas. Eu só conheço, portanto, funcionários, quer nos planos inferiores, quer naquele que posso relativamente chamar superiores. Nada poderia adiantar sobre os extremos hierárquicos. E nem conheço quem o pudesse fazer.

AGILDO, GAMA E SOFIA

Agildo era o chefe de família. Gama, um seu filho na última encarnação. E Sofia, uma excelente dona de casa. Esse triunvirato enchia minh’alma de doces satisfações familiares. Havia, também, uma jovem que vinha de quando em quando visitar os seus pais e irmãos; era Ema, um espírito bem mais crescido em valores despertos. Esta, porque não sei, se me afigurou alguém de quem tinha eu vaga recordação. Assim a vi pela vez primeira, fiz por isso dizer-lhe. E o belo ser teceu sua explicação:

– De fato, o senhor me conhece; ministrou-me a extrema unção quando deixei a carne. Não se lembra?...

Fiz todo o esforço possível e nada consegui relembrar.

– Não me lembro... Nem mesmo de seus pais... Creio que os anos passados nos lugares feios me embotaram a memória...

– Não se turbe em coisa alguma. – convidou ela – Faremos que um passado e laços profundos revolvam um véu que nos obscurece uns aos outros. Nós temos umas questões por resolver... E o bom Deus, que é sempre presente nos conferirá os elementos necessários. Demos apenas tempo ao tempo. Há que atender para essa lógica irremovível.

Suas palavras me tornavam excelentemente confiante. Sua influência superior me alentava. Lá nos confins de mim mesmo, porém, alguém parecia perguntar:

“Quem lhe ministrou a extrema unção fui eu... Como é que está assim, e eu venho das brumas, de um mundo onde só havia muito vento e gente nada escrupulosa?”

Achei bom, porém, não discutir alto. Por vaidade ou o quer fosse, preferi silenciar. Aquela jovem lúcida, depois de sorrir inteligentemente, perorou:

– Não tenha receio de pensar como bem quiser, tão alto quanto puder. Cada um de nós, aqui, ou já fez o mesmo ou poderá vir a fazer. Somos, pois, bem irmãos em tudo. E sobre ter pretendido libertar a mim ou a muita gente à custa das atitudes que tomou em certas ocasiões, presumindo perdoar pecados ou salvar, disso também não faça conta... Afinal, senhor Adão, não fez isso por primeiro e nem por último. Muita gente faz isso ainda e julga-se certa, quer na terra, quer nestas plagas da morte. Antes que melhor verdade ordene as mentes para melhor destino, quanto disso ainda haverá? Deixe-se, portanto, arrastar pelo aluvião da vida, pois está garantido contra perigos bem menores, estando a ombrear-se por estes sítios. O pior já se foi... Basta queira ser sincero para que melhores tons psíquicos em si mesmo se manifestem. Escancare sua alma... Não faça caso do seu orgulho... A simplicidade é força poderosa...

E tal era o poder de influenciação dela imanente, que lhe disse tudo o que pela alma dorida me rondava, como se fora vírus perigoso. Fiz-lhe saber do que em mim se passava, com relação aos direitos que julgava ter, pelos ofícios no mundo esposados. E quando, por imprevidência lhe quis contar um pouco daquele país feio onde tantos anos arrastei-me, disse-me ela, ponderadamente:

– O que fazemos devemos fazer de fato. Acenar com promessas não convém, principalmente quando essas promessas, sobre pretensas prerrogativas espirituais, nos forram de imediato o bolso e o estômago, sem falar a outros respeitos. Cobrar caro por prometer apenas é dura chantagem. No entanto, senhor Adão, prometeu e cobrou no momento, enquanto os crentes em suas afirmações, com nada saíam de sua presença. Que direito tinha de fazer isso? Não alegue a tradição e nem a sua própria crença, porque a Justiça Divina nada tem com isso. Nós somos emanação divina e trilhamos a senda do progresso; ninguém, por alegar a tradição ou o quer seja, aliena-se ao dever de melhorar sempre, de forçar sempre no sentido do mais puro e do mais verdadeiro. Cleros, estatutos e rotinas, senhor Adão, são coisas do homem.

– Nunca julgaria ser a coisa desse modo.. – confessei-lhe, compungido, por relembrar tristes ações.

– No entanto – emendou ela – basta queira ser igual aos outros para que venha a sentir-se cada vez melhor... Não é preferível ser verdadeiro a ser afilhado de estatutos humanos? Não é melhor ficar bem na ordem das leis de causa e efeito, do que julgar-se amparado por favoritismos e especialismos? Não é mais digno tomar parte consciente na lei de origem e destino comuns, do que pretender encontrar em Deus guarida para precedentes indecorosos? Que seria dos pequeninos se a atoarda dos religiosismos valesse mais do que a Sabedoria Divina? Ou devemos querer que a Soberana Vontade do Todo perca para o nosso rastejante sectarismo?

Singulares radiações a envolviam, talvez por estar falando tão sinceramente a respeito de assunto tão sublime. E notando o meu cansaço, convidou-me a sair um pouco, em passeio pela interessante cidade. Deixando os seus, acompanhou-me por longo tempo, conversando sobre coisas de sua região. Depois, despedindo-se, foi sumindo nos confins de um céu, que também era como o da terra, embora mais vivo o azul e mais sonhadora a distância.

AGILDO FAZ UM CONVITE

Coisa realmente de estranhar é o que se passa com os planos erráticos, com as inúmeras duplicatas etéreas da terra. Porque filtram a própria vida da crosta, embora variando tenuemente os tons, do muito mais denso ao muito mais sublimado. O que se passa nas zonas ou gamas internas é para ser alcunhado entre horrível e hediondo. E vem ganhando o exterior, alcançando a esfera dos encarnados, atravessando-a, ultrapassando-a, bifurcando-se infinito em fora, numa projeção indizível rumo aos celestes empíreos. Mas, cada zona ou faixa tem suas rígidas condições, é marcantemente o que é. Particularmente, o que há é um especifismo real e inviolável. Em qualquer parte o homem vive como se preparou para viver, colhendo na árvore da vida, assim como sua estatura lhe facilite poder colher.

Quando tivemos de abandonar, de ordem superior, aquela região, onde recebi as primeiras instruções sobre a vida espiritual consciente, Égas, por razões de ordem técnica e também efetivas, veio para o círculo da família Agildo, de quem em vida remota fora familiar. Juntos, pois, quase sempre, e à custa de suas experimentadas opiniões, fui formando o meu cabedal de pontos, de conhecimentos.

E foi sempre por convites a mim extensivos, por um ou outro deles feitos, que tive de enfrentar a mim mesmo, em assaltos impressionantes que certos dolorosos acontecimentos contra mim, arremetiam, em forma de impressões e psicoses doentias. Criei, pois, em mim, por experiência própria, campo vasto para as mais intensas flutuações de ordem psíquica. Por fim, estava curtindo como convinha.

Certo dia, portanto, tive que atender a novo convite.

E em face do convite a mim estendido por Agildo, tive que identificar-me com essa realidade, logo nos primeiros momentos de minha entrada para a sua adorável família. Porque fomos encontrar legiões de crentes de toda ordem, enxameando pelos vales inferiores. E por vales, alguns deles bem tétricos. E por que estavam ali? Não eram, em tempos, fregueses certos na banca de comércio dos seus intermediários? Quantos sacramentos haveriam sorvido, nos templos de toda ordem, que medram pelo mundo? Sob quantos nomes não haveriam apelado para o mesmo Deus?

Todavia, eles mesmos eram prova de que nas práticas humanas haviam falhado, do mesmo modo como eu fizera. Bem avisou o Mestre, de que gritar “Senhor! Senhor!”, na última hora, de nada valeria. Obras! Obras! Tal é o caminho do céu.

– Você habitou por alguns anos em zona astral inferior – disse-me Agildo, em conversa prolongada que tivemos – mas não viu e nem sabe coisas de lugares muitas vezes mais tristes. Nem mesmo sabe de coisas que se passam no céu terrícola, por entre a vida cotidiana dos que palmilham a carne mais densa. Leu, não é verdade, que Jesus passou pelo mundo expelindo maus espíritos?

– O Evangelho é eterna prova disso!...

– Pois bem, amigo Adão. Vou fazê-lo ver de perto essas coisas. Faremos uma aterrisagem a nosso talante por entre os embutidos na carne. E você irá ver o que é a humanidade encarnada, em número, com relação à desencarnada que lhe vive de par, disputando um lugar no espaço. Principalmente, quero que entre para dentro de alguns templos religiosos, verificando bem o que ocultam eles, para além dos olhos baços da humanidade que os procura, julgando que Deus ali esteja trancafiado.

– Será uma viagem feliz!... De felizes aprendizados... – considerei.

– Verdadeiramente – comentou Agildo – tudo o que se deve fazer é aprender e por em execução.

E o convite ficou para ser vivido dois dias depois, quando Ema também dele pudesse ser partícipe. Com isso muito mais me alegrei, porque Ema era um espírito de uma perspicuidade notável.

UMA DESCIDA À TERRA

Quando da viagem em realização, uma vez tornados nós mais identificáveis com a atmosfera da crosta, sulcamos como qualquer transeunte o chão cimentado de uma bela cidade. De chofre, em verdade, não se pode distinguir bem uma de outra humanidade. Os sem-carne perambulam pressurosos uns, vagueantes, outros falando sozinhos, outros disputando lugares em bondes e outros veículos outros, assim mesmo como o fazem os com-carne. Coisas piores fazem, ainda, exaurindo alguns encarnados, como verdadeiros vampiros. A densidade dos alimentos e do ar respirado ao natural, confere ao encarnado uma intensidade enorme no mecanismo da emissão do fluído animal eletro-magnetizado. Um corpo físico denso, pois, é uma usina conversível, transforma valores condensados em elementos fluídicos que se esvaem perenemente. E certos agentes do mundo astral se aproveitam disso, quando podem, ou quando leis cármicas assim lhes permitem.

À base de porcentagem, o plano da carne é mais habitado pelos sem-carne, por assim dizer. Porque, afinal, todos possuem carne, seja em proporção a mais variada. É preciso por muita atenção para bem distinguir entre uns e outros. E tais sem-carne existem, em condições tais de brutalidade, que quer dizer animalidade, que parece impossível os não veja qualquer olho encarnado. E quantas vezes um com-carne faz ou tece queixas, sendo que repete apenas aquilo que vive a lamuriar o sem-carne que o segue, muita vez em sua garupa, fazendo-o montaria.

Visto deste lado, portanto, o painel crostífero é enorme campo para as mais profundas análises antropológicas; mas uma antropologia transcendente, espiritual, e não como essoutra, respeitável sim, mas recalcada de chavões inócuos, apenasmente escolásticos.

Também, quem lhes pediria mais?

Em penetrando recinto templário freqüentadíssimo, calculamos ser de setenta ou mais por cento constituída a assistência de desencarnados. Assim como deviam ter feito na carne, assim como o faziam os com-carne, assim mesmo repetiam eles, os sem-carne.

– E depois vão para as suas zonas astrais? – indaguei.

– Qual nada! Vivem na duplicata do mundo carnal. Fazem tudo quanto faz o encarnado, tudinho, sem perderem nada. Como se educaram, ou como foram educados, assim se tem, assim são, assim vivem – elucidou-me Ema.

– Sabem de seus estados?

– Esse problema é complexo. A maioria não sabe. Dos poucos que saberão, por nada mais conseguirem que saber, ficam como estão. Vegetam perenemente pelas vielas de um mundo religioso que vale por um beco sem saída. Quando os encarnados vêm, também vêm eles. Quando vão, eles vão-se também. Eis ao que chamam viver, eis a rotina inglória em perfeita função.

– Isso é doloroso!... – considerei, francamente penalizado.

– O doloroso está para depois do espetáculo... – interveio Agildo, calmamente.

E ante minha muda inquirição, prosseguiu:

– Espere por um pouco.

De fato, em vendo como certos irmãos da carne identificam-se, em sentimentos, com o ato religioso, tem-se a idéia de que tais atos representam alguma coisa de vantagem em matéria religiosa. Tudo fica adstrito, porém ao saber certo se é a chamada criatura quem dá de si ou se é a religião quem de si confere valores. Cumpre não confundir entre dar alguma coisa e explorar alguma coisa. Quando se pensa que se está dando oportunidades de religiosidade, em verdade, pode-se estar a explorar a religiosidade. E a situação muda de cem por cento. Isso é o que se nota daqui, ao se encarar o panorama religioso do ângulo de vista formalístico. O crente dá tudo, paga por tudo, sustenta tudo, porque ele é quem tudo faz à custa de sua fé, dos seus sentimentos. E o pseudo intermediário, o que passa por ministro de Deus, nada mais faz que banquetear-se à sua custa. A diferença, repito, é cem por cento contra aquele que se julga melhor credenciado. Não explora apenas a boa fé; pela boa fé explora tudo o que lhe constitua decorrência.

E o povo, de qualquer forma, deixou o templo. Assistiu a um ato formal, sem sentido progressivo, sem esclarecimento algum, sem nada cogitar dos problemas da vida e nem da morte. E o templo ficou ainda regorgitante de gente! Gente vestida de hábitos vários, identificando-se com ordens várias. Gente que surgia de todas as portas, sarcásticos uns, flácidos outros, mais limpos, outros mais sujos, menos embuçados que outros tantos, etc. Ao cabo de minutos, o sacerdote oficiante veio para a nave do templo, estando inconsciente da turba que o rodeava para além das vistas. Uns diziam-lhe umas coisas. E ele, claro, não podia dar resposta. Outros perguntavam-lhe outras coisas, ferinas, mas também ficavam perdidas no mutismo. E a chacota campeava solta, por parte daquela gente um dia presumida, que por via da mesma presunção, julgava-se agora premida pela justiça do Senhor. Justiça Suprema, que tens Tu com a Peçanha dos homens, sem ser que aguardas dos mesmos reconhecimento interno das faltas cometidas?

Colocando-nos além do ponto vibratório que nos tornaria visíveis, fomos de bem junto apreciar a alma, por assim dizer, do pároco. Era um homem de bem, sem dúvida, pois a sinceridade transpirava simplesmente de todo o seu ser. Mais tarde, seria mais uma vítima de falsa concepção? Talvez não. O seu reflexivo revelava o homem exclusivista, sectário e angusto; mas, também, muito amigo dos pobres, dos doentes e dos infelizes em geral. Não parecia confiar nas pseudo vantagens do eclesiasta puro e simples. As lições do Divino Mestre falavam-lhe à alma sincera. Em se olhando para o reflexivo, notava-se a imanência de uma imagem. E era a do Cristo visitando os casebres, curando os enfermos, chorando com os que choravam... Essa visão do Cristo, ele a mentalizava de contínuo.

E parece que isso o isolava de certas nocivas influências. Porque alguns daqueles padres, alguns superiores, olhavam-no com má fé, capciosamente.

– E que espera essa gente toda? – perguntei, vivamente interessado, fazendo um cálculo sobre como poderiam tomar destino condigno.

– Outro problema complexo. – tornou Ema – Sabe bem que o ser é tangido por leis gerais enquanto ronda os planos inferiores da vida; mas que se vai tornando auto-senhor do próprio destino, auto-construtor, com a entrada cada vez mais definida no reino hominal, no plano da inteligência. Há que atender, portanto, para o fator direção pessoal. Nós vivemos em marcha perene para um estado de estar ou outro, através o nosso proceder. Dentre esses, portanto, os mais poderosos retificarão o modo de pensar e agir, subentendendo que se há falha não é da parte da Justiça Divina. Os outros, os teimosos, os que se julgam com toda a verdade e mais sobras de razão, esses estarão, inconscientemente, enveredando pelos caminhos mais trevosos da subcrosta. Creio que já lhe contamos sobre o que se passa no bojo da terra, pois não?

– Sim, de um modo geral. – redargúi – Espero, porém, poder constatar o que de fato ocorre em tais esferas da vida. Tão gentis têm sido para comigo, que me afianço hão de me facilitar instrutiva sondagem. Demais, sinto em mim incontido desejo de saber. O empirismo de outrora se me afigura infantilidade criminosa. Pois se tudo isto que hoje vejo parte do existente, e se faculdades nos permitem ver, estudar, sentir e viver tais verdades, ou tais emanações da VERDADE, porque temer constitua esse desejo de saber, uma heresia contra a própria VERDADE? Percebo, o quanto estão erradas as velhas concepções religiosas!

– Pode dizer o que bem queira, Adão, em torno aos temores supersticiosos com que no mundo certos credos aureolam a idéia de Deus e Seus domínios. O de que precisamos, em torno da VERDADE, é de armar-nos de bons conhecimentos. Compreender e executar bem, eis o que quer Deus. O mais fica por conta daquilo que constitua o interesse mundano dos donos de credos. E aí os tem. Veja-os bem. Uns cogitaram do econômico, outros de outros menos sadios ainda, pois abusaram da virtude, em vários sentidos.

– E os bons padres?... – quis eu saber, pois os há.

– Os humanitários? – inteirou-se Agildo.

– Sim, pois conheci padres como esse, que viviam para a fé e não da fé.

– E os céticos que ganham alturas, por que o será? Nesse caso, como está contido no mecanismo da questão, a vantagem é do humanitarismo e não do religiosismo. Demais, como sabe que trabalhamos nos meandros do Consolador restaurado, deve saber que aqueles que nele aplicam-se na vida, em crença apenas teórica, também e só por isso, nada obtêm de vantagens. O céu reclama despertar interno em PUREZA e SABEDORIA, e não em empirismos teóricos. Quanto ao mais, esteja certo, está no programa uma sortida aos planos inferiores, onde muito irá aprender, para mais tarde poder empregar em serviços úteis.

– É grato saber isso... Muito grato... – comentei, enquanto minha mente se distendia ao longo de respeitosas considerações, pela Direção Intelectual do Planeta, cujo cetro repousa na figura divinizada de Jesus Cristo.

E como me visse Ema entregue à meditação, em se chegando mais, falou com a ternura que lhe era costumeira:

– É-nos grato, também, hospedar irmãos desejosos de recuperação. Meu pai é um chefe de família, como milhares de outros nos céus inferiores, que precisam alojar hóspedes em trânsito para melhores postos. Todo o ser precisa de um ambiente familiar, para poder desempenhar-se bem nos serviços de edificação fundamental. Quem não conta com uma base sólida tem suas possibilidades atrofiadas. E o meu pai, como já disse, faz isso por gosto e função. Quase sempre, eu mesma é que lhe arranjo os hóspedes. Busco, em geral, criaturas de certo modo afins, para que uns e outros sintam-se satisfeitos e ganhem com a transação.

– Considerava, também – falei-lhe – o que lhes devo como funcionários do Senhor. Não são apenas iguais em tudo... São mestres em alguma coisa. Quero saibam o quanto me sinto desvanecido por tudo o que têm feito por mim.

– Outros também fizeram o mesmo por mim – atalhou com simplicidade Agildo.

– Também hei de querer fazer isso um dia, quando tenha uma oportunidade, um lar feliz numa zona qualquer.

– No seu quarto cabe mais um... Porque não arranja um irmão precisante? – emendou Ema, olhando bem para a minha indumentária de padre, como a dizer que devia lavrar em seara própria, assim julgasse oportuno.

– É exato... – murmurei, considerando a extensão da oferta.

– E o lar já o tem, é claro – anuiu Agildo, apanhando-me pelo braço.

– Obrigado!... Muito obrigado!... – pude dizer, comovido ante tanta bondade.

– Vamo-nos, que amanhã iremos para outros lugares. Essa pradaria cuida muito de suas importâncias, sendo preciso que o tempo faça sua parte, antes que possamos iniciar cultura. São como as terras ácidas; carecem de fosfatos. O tempo e a dor farão o devido, não há dúvida.

Atendendo ao convite de Agildo, partimos para a nossa esfera. Estava minha retentiva enriquecida de mais coisas do universo. E entre mim considerava no choque conceptivo, pois para a minha fé de padre, o homem devia cuidar somente daquilo que convém aos donos da Igreja, ficando o restante por conta do mistério e do milagre. Agora, em face de tantas evidências em contrário, sabia que cada um devia preparar para si um posto, à custa de conhecer e proceder, de saber e aplicar. Não havia dúvida alguma; seriam precisos bons esforços pessoais, conhecimento de fato, práticas de escol. E confrontando o que via e aprendia agora, com as lições do Evangelho, notava que Jesus, de fato, não perdeu tempo em se fazer um sacerdote ofertante de carne assada, nem de outras coisas formais ou idólatras quaisquer. Foi antes, lidar cara a cara com o realismo da vida, procurando o homem em si mesmo, e no homem o céu por despertar, fosse esse homem encarnado ou desencarnado. A vida de Jesus foi o mais frisante exemplo de contato entre os dois planos. E aqueles que, como eu, fizeram e fazem do Cristianismo um meio de vida, que ensinam? Dão bobagens, vendem formalidades, negam a presença dos espíritos! Trucidam o Cristianismo em nome do Cristianismo! Querem ser autoridade num assunto que ignoram totalmente. E em nome da autoridade que de fato não possuem, pretendem impor condições à própria VERDADE! Que diria eu se em vida me falassem do que havia visto, daquilo de que está inçado o mundo templário? Lançaria anátemas, diria ser coisa do diabo. Por muito menos, em verdade, fiz pior. Fui um dos grandes adversários do Espiritismo nascente... Momentos houve que julguei tê-lo derribado, com minhas argumentações. E me acreditava amparado no Livro Sagrado. Tão viciado estava na corrupção, que só podia entendê-lo de um modo.

VIAJANDO PELOS ABISMOS

Segundo o programado na véspera, bem ao alvorecer do dia, partimos rumo aos interiores do Planeta sólido. E este globo, aparentemente tão rijo, em nada nos opunha obstáculo. Tudo, verdadeiramente, excessivamente poroso. Assim como se pode ver no homem ao ser essencialmente espiritual, a chispa brilhante, assim também podemos ver a terra transcendente, ou o perispírito da terra. As camadas sedimentares nada mais são que refolhos do seu duplo etéreo, segundo cálculo e dadas as condições como se acham dispostas. Assim como as células do homem repousam nas do seu corpo perispirital, assim acontece entre as gamas sólidas da terra e as suas zonas igualmente perispiritais, as duplicatas fluídicas.

E quem quiser dizer em contrário, que o faça. Ninguém está aqui pretendendo catequizar. O tempo e a vida, o que fizeram comigo, por certo que farão com os meus irmãos que ainda relutam, em vista do brutalismo que os tolhe para as penetrações mais interessantes. Porém, de tudo aguarde-se a hora, que ela indeclinavelmente virá. E o fanatismo angusto se derreterá, pois que o meu, de muito não mais existe, graças a Deus! Mas um Deus Todo Presente, de que sou parte e infinitesimal representação. Um Deus que é a profundeza total em tudo e todos, de quem a JUSTIÇA não se faz rastejante, não se curva aos maneios nauseantes de pretensos ministros. Sim, um Deus que é o todo e a parte, porque o que existe será sempre manifestação Sua, seja lá pela razão ou forma que for. Um Deus que não cria e nem descria, por ser em si tudo, em ESSÊNCIA PRIMEIRA. E se digo ESSÊNCIA, é porque não encontro termo outro, que se aproxime sequer, para definir o indefinível, uma vez que o termo ESPÍRITO sofre a pressão do conceito individualístico, do antropomorfismo degradante. Não, pois Deus é impessoal.

Singramos, pois, o éter cósmico, numa gama ou tom vibratório que nos facilitava estar acima das contingências ambientais chocantes, aberrantes, tétricas. Vimos vales e montes, planícies e serras, mares e rios, matagais e regatos, desertos áridos e vulcões; tudo enfim, como na crosta se observa, mas em densidades outras, como se fossem, como de fato eram e são, duplicatas grosseiras da própria crosta. Assim, portanto, como para fora vão-se sublimando as gamas ou zonas, assim mesmo para dentro, por assim dizer, vão-se materializando. Há, porém, na profundeza de tudo o IDEAL em ESSÊNCIA, e, com isso, tons infinitos de manifestação. Pois nós fizemos, por determinação superior e faculdades despertas, um como contrato com uma gama ou tom vibratório, pelo que nos pusemos acima das tristes contingências ambientais. Atravessar a terra em todos os sentidos é o que há de mais comum para um espírito que possa e queira.

E que há por esses países?

Há gente vivendo a seu modo e condição. Rastejando e pior que isso! Civilizações mortais aí vivem ou prosseguem vivendo! Déspotas de toda ordem estabeleceram seus domínios por aí! Mandalhões chicanistas, donos de igrejismos, todas as coortes nefandas do mundo, diríamos, têm nesses países as suas sedes de sustentação! Deus é negado e invocado, comprado e vendido, adorado e blasfemado, tal qual como na crosta e em esferas exteriores próximas. Mas um Deus antropomórfico, um Deus déspota, o mesmo Deus dos religiosos da terra. O Deus VIDA, AMOR E JUSTIÇA, fundamento em base de VIRTUDES, esse Deus não é conhecido e nem cultivado.

Seres horripilantes dominam legiões. Bilhões de infelizes seguem a orientação de tétricos caracteres. E não vêm à tona da crosta porque não podem vencer as intensidades vibratórias. O especifismo vibratório é parede; é barreira instransponível!

No entanto, para a terra viver o seu drama oculto, o drama pungente dos desencarnados em procissão pelas vielas do mediocrismo intelecto-moral, não é preciso que subam outros mais infelizes ainda, de suas moradas infernais. Basta o que fazem os religiosismos do mundo, afastando o homem da RELIGIÃO, do conhecimento da VERDADE que livra, na expressão augusta de Jesus Cristo. Sim, pois sem o conhecimento do Deus AMOR, do Deus CIÊNCIA, em resumo todo VERDADE, como poderá o homem em si mesmo libertar-se do jugo do que em si mesmo é retrógrado? Apelando para um Deus exterior, como compreender a grandeza das virtudes internas por despertar? Os igrejismos formalísticos, faranduleiros, botequineiros do mundo, nada mais fazem que separar o homem de si mesmo, para o poderem separar de Deus e tornarem-No, assim, material de exploração fácil.

Não sou contra religião alguma! Sou contra a corrupção que lavra o mundo, em nome da religião. As religiões não ensinam a compreender e a amar a Deus; o que fazem, cada qual faz, é inventar modo próprio de compra e venda. Quando isso não faz um credo, então, em lugar de fazer entender ser o homem a imagem e semelhança de Deus, em ESSÊNCIA, procura incutir o inverso, fazendo de Deus, aquilo que o seu ignorantismo queira. Por que, pensando o homem rasteiramente, simiescamente, pretende impor a Deus esta ou aquela condição? E onde se conhece a insensatez do homem? No angustismo sectário, nos exclusivismos em geral, nas particularizações da VERDADE a seu modo e caprichos fanáticos. Basta isto – que o homem ainda serve para ser fanático! E quem serve para isso, distingue-se pelo inferiorismo hierárquico. E quem na terra é inferior, sendo a terra um país cósmico de ordem medíocre, como pode classificar o que é em si mesmo INFINITO? Quanto menos universal o homem for, tanto mais tacanho! Eis a regra básica. No universalismo, porém, também há lugar para os estrabismos. O taradismo campeia por todas as séries de tons fenomênicos. Há o universalismo dos tarados, sem espírito monístico, sem DEUS e sem ORDEM, sem JUSTIÇA, sem compreensão e sem HARMONIA. É o universalismo do homem animal, cuja configuração cosmogênica se reduz à anatomia do seu bolso, do seu estomago e dos seus instintos inferiores. Existem dois universalismos extremos, e, entre eles, tons ou matizes infindos. É preciso cautela. Despertar-se para os melhores conhecimentos, para poder-se aplicar de modo cada vez mais humanitário, mais decente, eis a prova que não falha. Por isso mesmo que, ao findar o Cristo a Sua carreira na vida da carne, como chave de ouro, usou a máxima suprema, sem a qual nada vale crer ou saber sobre Deus – “AMAI-VOS UNS AOS OUTROS”.

E como instrumento discernidor, pois sem compreensão não há responsabilidade, lembrou o seguinte raciocínio, simples, fácil, ao alcance de qualquer mente – “NÃO FAÇAIS AOS OUTROS, AQUILO QUE NÃO QUERERÍEIS VOS FIZESSEM”. Porque não haverá jamais dispositivo judiciário algum no mundo, que suplante a esse, a essa regra natural de soberana moralidade social.

Que vimos, pois, nos tredos países subcrostianos?

Vimos os inimigos da regra supra citada! Nada mais. Quem ama se sublima, assim mesmo como quem deseja o que é inferior se entorpece, se brutaliza. O amor infunde angelitude; o ódio fabrica monstros! O amor projeta aos céus etéreos; o ódio chumba aos lodaçais, aos abrazadores países da subcrosta. Os que muito amam brilham em fulgurações argentinas indefiníveis, sendo que os que odeiam e desejam más coisas, revolvem em si as formas já vividas nos reinos inferiores, tornando-se monstros horripilantes, fauciosos e sádicos.

REGRESSANDO

Quando de volta ao domicílio, sentia-me assenhoreado de valorosos elementos em conhecimento. Digamos como a coisa é. Na terra, pelo menos no credo que esposei e de modo profitente, julga-se que em face do céu basta uma atitude teórico-contemplativa, uma vez que tudo cinge-se a gestos e formalismos subservientes. Aqui, depois de um curso prático pelos rincões da dor, e outro intelectual, e outro moral, e outro aplicado, sente-se a pressão tremenda exercida pelo fator ignorância sobre o indivíduo. A boa vontade é só boa vontade. É fator respeitável, mas, nada além de boa vontade. E é por isso que miríadas de seres vivem se comunicando, por todas as medidas e tons de canaletas mediúnicas, nem por isso deixando de ser realidade, que noventa e nove por cento do que dizem, não vai além do medíocre, daquilo que ficaria bem na boca de qualquer encarnado de educação cultural bem inferior.

Que lhes falta? Falta-lhes a visão da realidade, daquilo em que, graças ao Supremo Poder, se expande a vida em suas tremendas realidades ingênitas. Os religiosismos do mundo, a respeito do céu, só ensinam a diminuir! E a operação mais singela, por aqui, é multiplicar por muito e muito! Eis, portanto, que o candidato a morto, em alguns credos formado, é antes de tudo preposto aos porões da atividade. Precisam recomeçar de novo e custosamente, por falta de força de embalagem. E disso devem estar cientes todos aqueles que assistem a sessões de Espiritismo. Quase tudo ramerrão, cópia rasa do linguajar dos planos da carne. No quer que pense, no quer que diga, nota-se aumento em fé mística, em desejos de utilidade; mas a pobreza dos conceitos, como a curteza de visão e a carência de concepções elevadas, patenteiam-se a todo instante. Noto isso em mim mesmo; por que, pois, não dizê-lo? Confessar tal verdade seria crime?

Ambrósio, o vosso já conhecido amigo, estava presente quando chegamos, de volta. Tinha feito, por razões do serviço, amizade com esta bela família. Assim apresentado, passou a falar, a perguntar, a argumentar. Notei-lhe, pois, o embaraço. Também esse amigo sofria a influência do não saber. Também não tinha tido, no mundo, um bom roteiro intelectual sobre as coisas daquém túmulo. Admirava-se com pouco e com menos ainda se contentava. Julgue como quiser quem me ler, principalmente se for do apostolado de alguma crença formal. Mas terá que se haver com muitas dificuldades, terá que ficar de boca-aberta em face de coisas bem simples, de acontecimentos e fenômenos ainda superficiais, ao deixar a carne.

Por esse tempo, já ia longe o exercício de Ambrósio no campo socorrista. Desconhecia muito, é certo, sobre o porquê de muitos fenômenos; mas, praticamente, em seu dossiê formavam excelentes haveres. A muitos havia servido com esforço, de muito lhe valiam aqueles poucos comandados de Jasmim, a mulher de cor por quem se desfazia em respeitos espirituais. Foi para lá que me convidou, assim julgou me estivesse com isso, propiciando fraternais favorabilidades.[1]

– Aceito – falei-lhe – pois me sinto ansioso por todo aquele saber que tanta falta me faz. Assistir a algum desses trabalhos me fará muito bem, principalmente no campo ilustrativo, onde, reconheço, sou como um vácuo. Lamento ter passado pelo mundo, a julgar tudo segundo o triste ângulo de visão, pelo qual me dei a ver. Sei que perdi oportunidades... Muitas e sublimes oportunidades... É de fato um crime o dispensar alguém, os elementos de aprendizado que da encarnação decorrem, por franca aceitação de um postulado dogmático e idólatra, só aureolado pelo vazio de uma fé contemplativa, formal e levianamente anti-racional.

– Conte, antes de mais nada, com o que de mais alto lhe aponta a Direção Intelectual do Planeta; é de cima que administram, isso o sei bem, mesmo tendo de confessar que nada sei de particularidades a si referentes.

– Fico-lhe, amigo Ambrósio, imensamente grato pela amizade e proposta em serviços cooperadores. Com mais alguns amigos dessa ordem, estarei devendo ao Supremo Espírito a minha dívida de gratidão. É uma benção do céu ter bons amigos.

– Muito maior benção é já estar compenetrado de que em Deus não existem mágicas e nem sortilégios, e sim lei de relações, de causa e efeito. Quando toda a humanidade da terra, dos planos da carne e daqui, souber que Deus atua em uns por intermédio de outros, para efeito de aplicação de leis, então teremos uma terra francamente integrada nos serviços de redenção. Desse dia em avante, começará a diminuir o número dos que pranteiam e se debatem em misérias de toda ordem. Porque, o que de fato falta, para a boa realização social, é simplesmente a consciência do fator básico, que é fraternidade exercitada destemidamente. A fraternidade das religiões é ainda empírica, é apenas contemplativa e separatista. Falar no amor ao próximo, e virar o rosto ao topar com o semelhante caído numa sarjeta, ou deixar de pagar uma dívida, ou passar avante uma calúnia, essa é a fraternidade das religiões e dos religiosos, por enquanto. E isso é hipocrisia...

– Levantemos, no mundo, o estandarte do Cristianismo do Cristo, daquele vivido pelo Divino Mestre nas ruas, nas praças, nos desertos e nos casebres, à custa do culto mediúnico o mais ostensivo. De tal modo convidaremos os homens do plano da carne a considerar sobre estes países, que eles mesmos hão de tecer raciocínios melhores sobre a Justiça Divina, que age no indivíduo de dentro para fora. E quando o homem souber bem, que se tem assim como se fez, então estará ele preparado para melhores lanços em busca de si mesmo. O reino do céu é de ordem interna. Começar a despertar é preparar campo para outras auroras, mais claras e mais distintas. Chega de focalizar o céu pelo prisma dos exteriorismos fáceis, porque apenas contemplativos e formais. O céu está no âmago de tudo e todos, porque é a Essência Máxima que a tudo dá origem e sustentação. Identificar-nos com ela, sem ser pelo despertá-la, é impossível. E isso devemos relembrar aos homens em geral. Relembrar, sim, pois apenas estamos repetindo velhíssimas lições, lições que foram transmitidas pelos grandes arautos do Senhor, desde os Vedas, passando pelos Budas, por Rama, pelos Zoroastros e pelos Hermes, pelos Profetas e tantos mestres de verdade. A terra está passando por tremenda convulsão transitória, como premissa de ingresso em ciclo superior de civilização. Cumpre a todos essa compenetração, para que a lei de equilíbrio do fenômeno não seja obrigada a agir violentamente, causando maiores dores do que aquelas julgadas indispensáveis. Porque há necessidade de abalos. Consideramos, porém, ser obrigação geral o fazer que não se prolonguem para além do necessário, os cataclismos que assolam a humanidade do presente ciclo.

Em ouvindo assim falar a Égas, voltei meu pensamento para as profecias do Divino Mestre, quando da necessidade de reposição das coisas no lugar, citando mesmo o nome de Elias, como sendo aquele que devia vir encabeçando tal movimento. E pensei na forma em que o faria, possivelmente. Estava meditando, quando Égas, tornando à fala, elucidou:

– Em que sentido poderia fazê-lo, amigo Adão, sem ser pela disseminação das leis mediúnicas para com isso forçar infusibilidade entre um e outro planos da vida? E sem o conhecimento dessa continuidade da vida, e das condições de vida, como restaurar a Doutrina Cristã? Não reparou ainda, Adão, que o batismo de Espírito, como tantas vezes deve ter lido, foi em comunicação entre vivos e mortos, tendo os Apóstolos falado às gentes todos os idiomas? E se o Cristo lançou, do alto de Sua Cátedra Diretora, a ordem de conúbio entre um plano e outro, não foi para que o homem se capacitasse da extensão mecânica da vida e da Justiça em que se funda? Que julga da lição do Pentecostes, então?

– A Igreja, amigo Égas, não interpreta assim... – foi o que então respondi – E eu só fiz o que a Igreja mandou fazer, infelizmente.

– Por causa da Igreja é que estamos trabalhando pela disseminação da Doutrina do Cristo; sem corrupção não haveria necessidade de restauração. E o Consolador é em si a verdade que no Pentecostes fluiu da orientação do Senhor. Assim como o Divino Mestre passou pela vida em perene contato com o mundo dos espíritos, expelindo maus, confabulando com os bons, curando mediunicamente, assim, também, terá que fazer o Seu discípulo. Sem esse conhecimento, como chegará à compreensão da Suprema Justiça? Ficaria toda a eternidade a comprar bugigangas das mãos dos corruptores da Doutrina Excelsa? Precisamos é de homens que conheçam e vivam a VERDADE; não porém, de servidores da traficância e da corrupção. O Espiritismo está no mundo, não apenas expresso pela vigência eterna de suas leis fenomênicas, mas sim pela organização em base doutrinária segura. A palavra do Cristo, com referência à reposição das coisas no lugar, está cumprida. Quem quiser, que de si mesmo dê frutos pela prática. O Espiritismo deplora a todo o exteriorismo; e faz prevalecer a ciência e o amor.

Olhou-me significativamente e sentenciou:

– Creio que entende para o que está sendo chamado...

Busquei nas profundezas de mim mesmo o que dizer. E disse, refletindo o que me ia pela alma sensibilizada:

– Um homem honesto não é o que tem um ponto-de-vista, ou o que nisso faça fincapé fanático; é antes o que vive de alma escancarada ao progresso contínuo, às sábias lições que o Supremo Senhor oferece, pelos escaninhos da vida em si. Eu quero ser um homem honesto. Ensinem-me, guiem-me, que longe vai o tempo em que pretendia impor ao próprio Senhor, a minha sectária visão espiritual, o exclusivismo degradante que emanava da ignorância em que me detinha, caprichosamente. A vida nos ensina, deste lado mais do que naquele, que é Deus quem governa, e não o estultismo sectário dos homens e dos seus religiosismos facciosos. Sinto, em mim, bem viva a sentença do Senhor – “A VERDADE VOS LIVRARÁ”. Não disse o Senhor que a libertação viria pela religião, mas sim pela VERDADE.

Égas sorriu. Seus olhos brilharam mais e sua boca moveu-se, para dizer:

– A Religião salva, a Religião liberta... Mas é a Religião com “R” maiúsculo. Quando o homem fizer do culto da VERDADE a RELIGIÃO, então, amigo Adão, aparecerá no mundo quem diga, com propriedade – “A RELIGIÃO VOS LIBERTARÁ”. Isso acontecerá.

Era hora de refeição, naquela duplicata etérea da terra; Sofia, a mãe de família, convidara-nos ao ato. E comemos e bebemos daquilo que convinha e condizia às nossas necessidades. Cada plano, como seja mais ou menos eterizado, assim confere elementos. Há intransferível relação entre os seres e as coisas, para efeito de comodidade. O padrão vibratório interno limita e determina a necessidade de utilização de fatores externos. Quem quiser o melhor, portanto, que se melhore. É a lei. De resto, que melhor Justiça do que essa, que emana do merecimento interno? Entender as leis vibratórias é como entrar para um curso de aperfeiçoamento – só resta exercitá-lo praticamente.

O REVERSO DA MEDALHA

No curso do ágape ficou combinado que iríamos, à noite, assistir ao primeiro contato com o Consolador em exercício no mundo. Com o Espiritismo.

– Jesus Cristo – perorou Égas – foi o mais conciso pregador que jamais o mundo dos homens presenciou. Para despertar as virtudes intelecto-morais, recomendou serviços práticos, vida intensiva no bem individual e coletivo. E para a ilustração nos campos do transcedentalismo, prometeu um consolador informante. Desse conúbio, quem fugir, por certo que estará fugindo de todos os mais fatores apreciativos. Esse dueto é o axioma sine qua non, sendo o mais tudo, pura questão de corolários. Sem alicerce, como edificar com segurança?

Ao término do petisco, pois, Ambrósio despediu-se, prometendo voltar pelas sete da noite, em companhia de outros amigos e servidores do bem.

Uma vez a sós, Égas disse, desse amigo, qualquer coisa, informando ser ele um redimido do drama hediondo do Calvário, onde teve parte saliente; disse que, em virtude de suas amizades e das suas condições de homem de dinheiro, muito pode fazer para a condenação do Divino Mestre, chegando a pagar gente, a fim de dizer o que era falso.

– Ainda bem que não há condenação eterna! – tive que dizer, movido por alguma razão íntima, sentido em mim revolta contra qualquer coisa que me ia pelo subconsciente.

– Então – interveio Sofia – quem estaria por aqui e nos planos mais celestializados? Tendo que vir subindo o espírito, pelas camadas da chamada Criação, da inconsciência para a consciência, como estaria o erro? E se Deus, que nos tornou centelhas Suas individualizadas, e com o direito de auto-personalização, por isso nos condenasse, onde estaria a Sua própria sensatez? Todo e qualquer crime é remissível, sendo porém certo, que a cominação dá-se pelo montante em conhecimento de causa. Nós, pois, somos em nós mesmos o tribunal todo – acusadores, defensores, juízes, jurados, vítimas, algozes, etc. O Código é a VERDADE, é Deus em si.

– Isto é tremendamente belo! – considerei, por confrontar dentro de mim a distância que medeava entre a verdade que era e os argumentos simplórios e extorsivos, com que a Igreja pensava expor e defender o princípio de Justiça Divina.

– Pois ensinemos isso aos nossos irmãos, quer aos da carne, quer aos daquém carne; isto é a todos, achem-se metidos em corpos quaisquer, mais ou menos densos, contanto que vivam ainda nos vales da treva – convidou Agildo, levantando-se em seguida, para atender a um casal que chegava.

Uma vez introduzido o jovem casal, disse-me Agildo, apresentando-o:

– São amigos recém-vindos da terra; viajavam de avião para a lua-de-mel, quando a libertação os colheu de fato... Como fomos os indicados para o socorro imediato, eles vêm nos visitar, em sinal de gratidão.

– E porque passamos a nutrir pela família Agildo uma amizade muito grande – explicou a jovem, evanescente de alegria, envolvendo-se por entre os braços de Sofia, que a recebia como se fora a uma filha.

– E queremos nos levem ao grupo espírita onde fomos doutrinados! – pediu o rapaz – Sentimo-nos na obrigação de dizer qualquer coisa, um não sei o quê.

– É interessante!... – disse eu, entrando na familiar conversação.

– São leis. – elucidou Égas – Eles fazem orações pelos espíritos de cujos nomes se lembram, vindo suas vibrações mentais atingir-nos. Às vezes, o que se passa, é que gente da assistência retém nomes, fazendo preces em suas casas. De qualquer modo, porém, há sempre alguma lei em função, para que o fenômeno se dê. E nós iremos ver o que é mesmo.

– É na casa da tal senhora Jasmim? – indaguei, lembrando o combinado entre eles e Ambrósio.

– Não; mas nós iremos a ambos os lugares... Dependemos do querer e do pensar, apenas, para a locomoção – respondeu-me Égas, inteirando-me do que nem me passava pela mente, pois calculava na distância possível, por vencer.

– Este padre onde habita? – disse por sua vez o rapaz, estranhando ou parecendo estranhar, em mim, qualquer coisa.

– Este padre está passando por aquilo que vocês também passaram... Ele é um irmão que vem da terra e está fazendo a sua introdução nas coisas aqui do nosso plano. Deve vir a ser um batalhador do Espiritismo, dentro em pouco. Assim é que está de cima determinado.

– Eu lhe estranhava as vestes... – concluiu o jovem.

– Por que? – indaguei, pondo em mim um pouco de atenção, pela primeira vez depois de haver deixado a carne.

– Ora... Eu pensava... Quem sabe... – deu-se a monologar o jovem, parece que sabendo o porquê e temendo expandir-se.

– É que vestes simbólicas por aqui não são usadas – interveio Égas, vindo em socorro do jovem.

E enquanto minha mente trabalhava por descobrir mais, tornou Égas, vencendo em si um pouco de timidez, para falar-me francamente:

– Nos países inferiores do astral, como sabe, também vivem os religiosismos do mundo, com todos os aparatos e formalismos. Aqui, embora ainda não seja um plano superior, espera-se que cada um se compenetre de que a veste importante é a de ordem interna. Precisamos acabar com os exteriorismos que medram soltos pela terra, e pelos astrais inferiores; mas aos poucos, de acordo com o esclarecimento dos seus elementos. Jorge foi educado na nossa escola, sendo natural que estranhe ver alguém nesses trajes, por aqui. O amigo Adão, naturalmente, compreenderá tudo muito bem...

– Graças a Deus, já tenho vencido em muito ao meu errado personalismo em vários sentidos. E tenho gosto em lhes dizer, que me sinto feliz com mais esta lição que me chega de modo tão espontâneo. Lembro, também, que Jesus Cristo andou vestido com uma túnica paupérrima, sem costura, nunca tendo dito a Seus discípulos que se ornassem, sem ser com as vestiduras do AMOR e da SABEDORIA. Creio e até posso afirmar, que o valor de muitos padres só decorrerá das vestes que usam, de cuja capacidade de impressão psicológica pouca gente se inteira. Sem isso, diremos, que ficaria de certos padres, assim como de mim mesmo? E já que estou em ambiente familiar, graças a Deus, porque não devo dizer a estes jovens que venho, agora, não da vida de encarnado, mas, dos planos tristes do astral? Por que não confessar de vez que do mundo só trouxe material pesado, lastros de mazelas, toneladas de atraso em todos os sentidos? Como não confessar de público e razo que julguei honesto comprar e vender a Justiça Divina, separando uns dos outros, a seres que em nada de mim dependiam para estarem enquadrados no direito de Supremo Determinismo? Quem, pois, por cursar uma sabedoria sectária, por usar vestes fingidas, por sustentar vãs presunções, pode tirar ou pôr um ceitil que seja ao que é de exclusividade do Supremo Senhor?

– Mas você não poderá trocar de vestes por ora! – sentenciou Agildo, com um tremendo poder de convicção, que me fez estremecer todo.

– Por que não?!... – indaguei-lhe, aturdido.

– Porque está para si destinado um acontecimento muito importante. Não fale, que mais não quero falar, sobre o caso. E espere confiante no Senhor, pois que jamais esquecerá o que consigo se irá passar, quando soar a hora...

E fiz silêncio, conforme o pedido. Estas coisas me inundavam a alma de felizes anseios. E por só vir de merecer isso pelas disposições d’alma dos últimos tempos, considerava o fator livre arbítrio, no orçamento do Supremo Determinismo. Então, por só desejar o bem sinceramente, a ponto de empregar esforços mentais no sentido de futuras ações redentoras, só por isso, já me via alçado às alturas de tais recompensas? Como, pois, não receberão, não se plantarão às alcandoradas posições, aqueles que viverem em estado de perene evangelidade? Que diremos dos que educam, dos que cuidam dos órfãos, dos desvalidos, dos doentes, etc.?

ENTRE IRMÃOS ENCARNADOS

À tarde, como estava combinado, a casa se encheu de gente amiga. Todos queriam assistir aos trabalhos de Espiritismo; uns por vencer em si certos impasses, e outros por prosseguir em ações nobilitantes. O encanto estava naqueles que em si mesmos não pensavam, balanceando só e apenasmente, o bem ao próximo. Estes, é certo, radiavam superioridade excelentemente psíquica. Forravam-se de aura simpática ao extremo, chegando a emanar ondas multicores e sonoras, por mais que as procurassem ocultar.

Era uma grande casa, aquela onde por primeiro entramos. A sessão, no entanto, era privada aos serviços de orientação de seres altamente endurecidos. Este termo, disseram-me, cabia a mais cristandade do que a expressão “espírito imundo”, tão repetida na Bíblia. E ninguém é mais, em verdade, que sensível ou endurecido, no quadro dos tons hierárquicos. Chegavam, aos poucos, trabalhadores do bem, arrastando empós de si levas de irmãos relativamente ressarcidos. Outros vinham amarrados, enjaulados, etc. Outros monstruosamente deformados, por via da corrupção intelecto-moral, por desejarem insanos cometimentos. Assim, portanto, a assembléia estava seleta, constituída de gente de toda a ordem hierárquica, que eu pudesse desejar. Para exercício de confrontação, análise em torno à livre disposição de ânimos, e conseqüente auto-classificação, ali estavam seres que brilhavam e seres que amedrontavam. E os valores não se confundiam.

– Na essência – disse-me Égas – somos todos iguais; mas na organização da personalidade variamos uns dos outros, pelo uso que fazemos de nós mesmos. Quem quiser brilhar, que faça de si uso sábio e amorável; e quem quiser entrevar-se, tanto lhe basta propor-se a isso pelas obras. Sempre as obras. Há quem diga estar o Determinismo ingenitamente em nós, para o usarmos contra ou a favor, ainda que inconscientemente. E creio mesmo nessa alternativa concepcional, pois justiça imparcial, só mesmo nessas condições. Nós mesmos, pois, é que fazemos o nosso destino.

– O homem poderia acusar a extra-imposição, como sendo um possível elemento contra si; e poderia culpar ao princípio de Justiça Superior. Ao falhar, só teria que atirar a culpa sobre a intensidade da prova extra-imposta – argumentei.

– É conceito que deve desaparecer das concepções religiosas, pois a expiação não é imposta por Deus, mas sim pelo próprio ser, em virtude de suas obras. O livre arbítrio de hoje, mal usado, sem dúvida que virá a ser no amanhã o triste determinismo ou cruel destino. Devemos acabar com essa coisa de julgar a Deus como um vingador. De fato, pelo que virá a poder estudar, compreenderá que a dor, de ordem qualquer, espiritual, moral, mental, intelectual ou física, decorre sempre de obras más, de ações vis. Como já tivemos oportunidade de conversar, Deus será mesmo o CÓDIGO INABALÁVEL; mas nós seremos tudo o mais que comporte o programa judiciário em execução. Embora a maioria o não possa compreender ainda, mas nós temos em nós mesmos tudo – Juiz, jurado, réu, acusação, defesa, condenação, apelação, etc.

– Majestosa é a Soberania do Supremo Senhor, sendo assim. Não deixa campo às argumentações do cinismo e da má fé. Tudo, pois, do que carece o homem, é de conhecimento da VERDADE – anuí, com inteireza de ânimo.

– E para isso o homem conhecer, foi que Jesus Cristo veio trazer-nos um batismo de Espírito; isto é, veio escancarar os portais do mediunismo, do intercâmbio entre os ditos vivos e ditos mortos. A lição, portanto, assim quer o Diretor Planetário, deve ser por espontânea feição da própria vida, em manifestação. O que é exato é que de si mesmo deve dar testemunho. Por isso mesmo é que disse aos Apóstolos e presentes, que eles viriam a dar disso testemunho. E você me diga uma coisa – que diria aos encarnados, sobre a VERDADE, se pudesse hoje mesmo falar-lhes? Não teria que contradizer o que pensava ontem ser o justo? Pois o que está tendo pela frente, nos fatos que ante si se desenvolvem, é a palavra imortal do Divino Mestre. Eis que aqui estamos, amigo Adão, para testemunhar aos do plano da carne e países inferiores do astral, sobre Deus, o Cristo, a imortalidade da alma, a evolução, a reencarnação, a comunicação, a pluralidade dos mundos e planos habitados, e, acima de tudo, a interioridade da Justiça Divina, para consolidar na consciência humana, a certeza de que temos em nós mesmos o céu e o inferno, para os despertarmos segundo a vontade, pelas obras.

Uma sineta espargiu som, comprimida pelo presidente do ato. Imediatamente, o ambiente psíquico transmudou-se, tornando-se sublimado. Ao toque de reunir, cada consciência se pôs em função espiritual. Eflúvios luminosos cortavam o éter em todas direções. Ondas luminosas e musicais nos atingiam, sensibilizando-nos.

– Eis o que podemos fazer com o pensamento! – acudiu Égas.

– São verdadeiras fontes de luz divinizada! – anuiu Sofia, lagrimando.

– É que desejam ser úteis aos irmãos sofredores... – comentou Gama, o filho do casal.

Toda a minha capacidade e ternura se volvia para aqueles devotados discípulos do Mestre. Não é que eu já possa sentir, em extremos de percepção, ao poder tremendo, em moral, que é pensar em amar muito ao próximo. Nem que seja capaz de medir, a que ponto aquela gente já podia sintonizar com a onipresente ESSÊNCIA DIVINA, para assim tornar-se reflexiva. É que sentia em mim, qualquer coisa que deles emanava, a envolver-me, a enredar-me em santos laços de puro amor. Eu não estou qualificado para discernir o amor; mas me qualifico a mim mesmo como capaz de dar testemunho, assim como o é da vontade de Jesus Cristo, que força maior jamais poderia conceber. É coisa que nos bate às portas d’alma, envereda pelos recônditos do eu, transborda em maviosos acordes, enleva, sublima, diviniza, infundindo-nos uma sensação de celestialidade indizível. Que sei eu o que é, isso que é o AMOR, meu Deus? Mas, Senhor, eu sei o que é; és TU, Senhor, a repontar nos horizontes de nossa educação espiritual, sob a forma de um sentimento intraduzível.

Ao cabo de empolgante prédica feita por um irmão encarnado, cujas palavras vinham a nós como portadoras de tremendo potencial eletromagnético, falou o espírito patrono da casa espiritista. Depois, Égas, falando com aquele mentor, combinou a comunicação do jovem casal, que sentia incontido desejo de agradecimento a quem lhe havia sido de grande valia. E em seguida fomos para a casa paupérrima de Jasmim, apadrinhados na amizade de Ambrósio.

CONFORME O DITO, ASSIM O FEITO

A coisa começou logo com forte lanço para mim. Eu nem sonhando seria capaz de supor, naqueles dias, que um espírito encarnado pudesse sair do seu invólucro, em perfeita condição de consciência, a ponto de vir conosco falar, trocar idéias, emitir conceitos superiores. Pois isso mesmo foi o que fez Jasmim, a irmã de cor, de cujo corpo se valeu uma entidade de mim desconhecida, para falar aos do continente da carne mais densa. E ela era bem uma estrela a brilhar! Por que não?

Ambrósio, por sua vez, devia saber de minhas coisas, pelo visto e feito, em favor de minhas necessidades. Porque, em se chegando a mim, disse:

– Vamos passar pelo cadinho mediúnico, irmão Adão? É de mais alto que lhe vem a oportunidade. E note que é primoroso o momento.

– Entrego-me às vossas vontades... Eu nem sei como vos agradecer tamanha bondade para comigo...

– Se triste é a dor, celestial é a paz. Receba o seu, agora que é tempo, para depois poder ser útil aos que gemem e pranteiam nos abismos, por onde já fez passagens e estudos. Acatemos a realidade.

E meditei, em fração de minuto, na grandeza da cronometria do Senhor. Procurar ter, para poder em seguida dar! Que melhor emprego do eu poderia haver? Que apostolado melhor poderia ser sequer imaginado?

Quando menos esperava, eis-me envolvido pela aura mediúnica da irmã Jasmim. E que falar? Que dizer? Como responder às perguntas que o presidente me endereçava? Foi quando Égas, sorridente, balbuciou-me aos ouvidos:

– Você, um ministro de Deus, falando aos da carne e sem ter o que dizer?!

Procurei recobrar-me o mais depressa possível, para não fazer um fiasco. E comecei por contar-lhe a minha própria história. Devo ter gasto muito tempo em relatar tal coisa. E sentia que todos, encarnados e desencarnados, me ouviam com religiosa atenção. Só mais tarde é que me informaram do ocorrido; minha mãe, escondida por entre as claridades de mim ocultas, pedira aos chefes para que ante aquela assembléia de dezenas de milhares de irmãos, fizesse eu a minha profissão de fé nas coisas do Senhor, à margem dos formalismos religiosistas do mundo.

Pouco depois de terminar minha palestra, quando pretendia agradecer e deixar a tribuna de carne para outros, senti que um frêmito me invadia todo. Perdi de mim mesmo a consciência. Deixei de ser, por momentos. Acordei para a minha razão, para a sensação sublime do eu, completamente mudado em roupa! Um traje à européia me fora dado. A veste fingida, de padre, para onde fora? Não sei. Por fora, estava vestido de claro, bem claro. Por dentro, revestido de santos desejos. Queria amar muito, em espírito e verdade, para assim poder ser amado. Queria atingir a um conhecimento que me facultasse ir aos planos de dor e de lá arrancar a muitos, assim como fosse de cima disposto, trazendo-os para as clarinadas da vida consciente. Queria aprender a revolver, no emaranhado do caráter humano, a tudo o que de tumultuoso ali estivesse contido, barafustrado, recalcado: queria subtrair às farpas do ignorantismo, o único diabo que de fato existe, a muitos amigos e irmãos. Eu queria ser de fato religioso! Já podia compreender, graças aos esclarecimentos recebidos, que religião é lei de amor e não conceituação sectária. Sentia, pois, em minh’alma, anseios de amor puro, desejo sincero de ser útil. Que paz gozava em mim! Que compreensão da vida!

Não sei até onde aquela metamorfose refletida no meu exterior, na minha aparência fisio-indumentária, pudesse ser reflexo do montante da revolução interna; o que sei é que estava leve como uma pluma! Que via e sentia mais e melhor. Disse isso aos amigos e benfeitores. E Égas, exultante de felicidade, comentou:

– Tudo é questão de desdobrar poderes latentes. Você não foi bafejado por favor algum, senão que atingiu o tempo-cíclico de expiação a que se propôs, em virtude de atos menos dignos cometidos. Agora, como deve e pode entender, dado que venceu em si a purgação, tornou ao seu grau ótimo hierárquico. O que tem em paz e glória é o que de direito lhe cabe. Não se faça piegas, meloso ou nauseante, para conosco ou para com o Supremo Poder, que é interior a si, porque isso significa ser tolo. Nós, os orientadores, queremos compreensão e amor. E Deus quereria, porventura, ser bajulado? Ou agradecido com melopéias afetadas? Compenetre-se de que é um agente do Senhor, e que deve fazer o possível por auto-despertar-se, para daí armado de verdadeiro penhor de consciência, poder servir ao próximo. O que for mais do que isso, amigo Adão, é falta de respeito à VERDADE.

– Mas gostaria tanto de agradecer!... Sinto-me ufano!... Enlevado!...

– Melhor agradecimento do que compenetração das origens e do destino, não pode haver. De resto, pense nos que se acham nos abismo onde só há de fato pranto e ranger dos dentes. Lembre-se que para eles não há LUZ e sim TREVAS, porque em lugar de AMOR cultivam VÍCIOS. Se conquistou, pois, um posto de honra, dignifique-o cada vez mais com ações nobres. Não vá pensar que se abalou um grão de areia, ou uma semente de mostarda, no concerto universal, pelo fato de se ter recolocado em lugar melhor. Nós executamos um serviço; você retornou à casa. E tudo prossegue normalmente. Ainda que tivesse merecido o mais alto empíreo, ainda que fosse ombrear-se com os Cristos que vivem nas zonas interestrelares, ainda assim, tudo continuaria do mesmo modo, na terra e no universo em geral. Porque a lei quer que cada um seja o seu próprio artífice. É assim, portanto, que o gozo fraterno pode se tornar extensivo a uns tantos amigos; mas a glória é de quem se glorifica. Esse sagrado direito, ninguém tira e nem põe. É nosso por natureza. O SAGRADO PRINCÍPIO, que é em nós, é quem assim ordena. E quem se poderia opor?

Aprendia, pois, a raciocinar. E sentia que aquela gente amava a Deus de um modo infinitamente superior. Eles não mecanizavam exteriorismos, não expunham os pensamentos através ronceiras elucubrações, não buscavam melar Deus com porfias laudatórias. Amavam procurando o significado da vida e das ações, pelas sendas norteantes do Amor e da Ciência.Viver significava agir. Saber significava obrigação. Amor significava aplicação. Lei significava disciplina. Irmandade significava cooperação. Amizade significava solidariedade. Auxílio significava tolerância. A fé parecia feita, em suas consciências, de tremendo potencial em compreensão cósmica. O respeito ao Cristo era neles a imitação nas obras.

E eu sentia o quão longe disso está o religiosismo terrícola, feito todo ele de figurados simbólicos, de contemplismos vadios, de preconceitos viciados, de rotulâncias afrontosas, de mentiras oficializadas e impostas com força de lei!

A CAMINHO DO CÉU

De retorno à região-morada, sem ter migrado para lugar melhor, sentia-me no céu. E lembrava o Verbo Divino, quando disse – “EIS QUE TENDES O REINO DO CÉU, DENTRO DE VÓS MESMOS”. Então, pensava eu, porque é que há, quem no mundo pretenda vender o céu aos outros? Se é interior, como de fato o sinto e vivo, tudo deve mesmo resumir-se em educação. Então, porque é que em lugar de educação impingem sacramentismos apenasmente simbólicos? E porque dogmatizam? Que sabem do imenso mecanismo da VERDADE? E enquanto assim pensava, recolhido ao silêncio de mim mesmo, no meu quarto de homem morto, eis que sublime vibração me atinge em cheio, fazendo com que me concentrasse no Senhor, por supor ser essa coisa, premissa de outros e mais faustuosos acontecimentos. E tive êxito.

– Paz seja em ti, meu querido filho!... – foi a saudação recebida.

E fazendo por alçar-me, quis também falar. Tudo em vão, porém. Via e ouvia; no entanto, nem podia falar e nem mover-me. Força coercitiva tolhia-me por completo.

– Farei por ti, filho querido, tudo o que me seja pelo Senhor facultado. Hei de resgatar a culpa de ter-te feito errar tanto... Sou tua mãe...

E desapareceu de diante de mim, assim como se desfaz a nuvem de vapor. Volvi ao natural, cheio de imensa alegria, mais endividado ante os Poderes Superiores. Todavia, dei-me a meditar nos seus dizeres. É que tudo fizera porque me tornasse padre. E sabia o porquê, bem de ordem imediatista: “Nada como vida de padre!”.

E adormeci.

Ao acordar, o sol brilhava naquela região; e me sentia como que desfazer num frenesi de puro amor pelas coisas e pelos semelhantes. Experimentava um céu diferente, em mim e em tudo o mais. Não tive vontade de refazimento alimentar, parecendo-me ser isso excessiva animalidade. E estudava em mim mesmo a diferença, contrapondo a tudo a possibilidade de ser o estado novo de estar, apenas produto de algum recalque psíquico, e muito superior, é claro, em virtude de ter-me deixado influenciar pelas coisas espiritualmente notáveis que se passaram durante a sessão. Ao topar com Agildo, que em companhia de Ambrósio entrava com uns papéis nas mãos, convidou-me ele, depois de por indisfarçável olhar em mim, tão penetrante o quão amigo:

– Venha conosco, Adão.

Sentamo-nos na sala; e começou ele por dizer, dando à voz flexões simpáticas:

– O seu padrão vibratório é outro, depois do acontecido ontem. Tem, portanto, direito a habitar região superior ou condizente. Aliás, isso é o que sucede com muitas pessoas, nesta e em todas as regiões. Fica, pois, avisado. Em querendo mudar-se, esteja certo de que será satisfeito. Nós temos cumprido nossos deveres de amigos, irmãos e servos do Programa Divino. Estamos pagos e muito bem pagos, porque de si obtivemos assentimentos inteligentes, e do Supremo Poder a oportunidade de servir. Grato é poder servir, aos que querem ser servidos.

Deixei-me conduzir pela pressa de elevados sentires. E lágrimas me rolavam pelas faces, felizes e ardentes em desejos nobres, assim como ardia em todo o meu ser, a chama do amor puro. Foi com embargos de voz que falei:

– Tenho aprendido que agradecer, não se deve fazer por exteriorizações. Por isso retenho em mim, a custo, a onda de gratidão que gostaria de expandir, por meio de gestos e palavras. Na pauta, portanto, está a diretriz indicada e admitida, com todo o prazer de alma de que queira capaz. Fico, para servir e ser digno da gratidão à qual me sinto penhorado. Agradeço ao Supremo a oportunidade de ficar.

– Já fez sua refeição matinal?... – indagou Agildo, enveredando a outro rumo.

– Não sinto vontade. Hoje a não farei, pois coisas diferentes bailam pela minha mente.

Pondo-se de pé os dois, convidou-me Ambrósio:

– Vim pedir a Agildo auxílio para um trabalho. Quer vir conosco?

– Qualquer ocupação me seria uma benção, principalmente arribar com almas ainda empecidas em suas possibilidades gloriosas. Despertar o sol do amor nos irmãos deve ser o trabalho mais santo por realizar.

– Não olvide, por acaso, que para educar é preciso ambiente, ocupações, possibilidades várias; e que para isso conta a Lei Suprema com mundos e meios, trabalhos e condições, tempos e mil matizes de aplicação. Repare que ninguém se faz em mil anos e nem em dez mil, e nem tampouco em dez vezes isso. O que somos, hierarquicamente, sem dúvida devemo-lo aos milhões de anos. Singrar pelos reinos e espécies, pelos matizes hierárquicos e pelas condições, demanda tempo e aplicações incontáveis. Orientar, portanto, como o estamos fazendo, que é como fizeram outros conosco, não é muita coisa. É colher semeaduras milenares, é achar seara pronta, é dar modalidade ao ato de ceifar, apenas.

– Veja como o Ambrósio está afiado, Adão!... – comentou Agildo, airoso.

– Devo-o aos bons amigos e bons livros que temos em nossas bibliotecas.

Metendo mãos nos papéis que havia deixado sobre a mesa, e os estendendo a mim, disse Ambrósio:

– Vamos buscar essa irmã? Está colada a uma outra, prejudicando-a para além do justo...

– Bem sabe que quero ir, amigo – falei-lhe, ansioso por atividade.

E partimos, mas de um modo onde o ato de partir, a premissa do ato, parece não ter tido tempo de ser e intervir. Em nada, estávamos na terra, em subúrbio de grande cidade, dentro de casa rica. Ali, um irmão familiar dissera a Ambrósio, que o inquirira:

– Malvina está para a igreja; foi à missa.

– Vamos para lá – disse Ambrósio.

E dentro da nave imensa, fomos ver uma mulher orando, que tinha ao lado outra a lhe imitar os gestos. Mas estoutra lhe estava ao colo, dependurada, apresentando sintomas de quem sofria de paralisia.

– É essa que aí está. – disse Ambrósio – Vamos esperar que cheguem ao domicílio, pois com a retirada de uma a outra poderá ressentir-se. Existem pessoas que se acomodam com quem as usurpa. Neste caso, como de há anos que impera a troca de fluídos, é preciso um pouco de cuidado. Separar violentamente é causar lesão.

Enquanto isso, perambulamos pelo recinto, pondo reparo em mil e uma coisas, a contar do padre oficiante, que devia ser um grande sincero. Em lhe notando o que de alma punha no ofício, tive de dizer aos amigos:

– Pelo menos é sincero, bem merecia agir em campo mais lúcido e benfazejo!

– Aí está um caso a estudar e atender. Até onde um ideal pode fazer o homem, e até onde o homem pode emprestar foros a um ideal? A não ser o fato de o ideal truncar nele e nos seus seguidores o poder evolutivo, que se poderia criminar? É preciso compreender que uma ação, pelo ser nobre até certo ponto, nem por isso deve ser ingênua ou simplória. O mal está nisso, pelo menos neste caso, pois não favorece meios de progresso, não deixa campo para o avançamento necessário, nos domínios do mecanismo da vida e do universo. É fé; mas cega e retrógrada!

– Como se haverá esse padre com a desencarnação? – perguntei.

– Tudo indica que virá a ser um bom; mas pobre de conhecimentos que o tornariam um forte. – julgou Égas – Como sabe, a paz vem do AMOR e a autoridade vem do CONHECIMENTO. Ele será um pacífico, o que já é alguma coisa.

– Sorte teve ele em não ter querido ser trunfo... Foi nisso que mais me danei... Estimando os postos altos, saltei por sobre direitos e vilipendiei à bessa, sem cogitar de que mais tarde toparia com outra ordem de Justiça...

Reparamos, também, que o número de mortos era ali maior que o de vivos; e todos seguiam a mesma rotina. O ato de ali estar é que era fazer religião! De cada mente evolava um modo tosco de respeito a Deus e aos santos, porque tudo à idólatra, supersticiosamente, misteriosamente, temerosamente. Compreensão da vida e suas aplicações, na igreja diuturna da convivência humana, isso não se sentia naquela gente. A fé contemplativa é um nefando vício, sem dúvida, porque entorpece no ser o desabrochar de suas naturais qualidades de servidor da causa universal, na pessoa dos semelhantes, da igreja de fato.

Quando o ofício terminou, três mulheres saíram juntas; uma, porém, era a que ia no colo da outra. Tinha uma perna rijamente esticada. E o quadro era triste, embora fosse também humorístico. Calculem, uma mulher a conversar com uma sua amiga, tendo ao colo, agarrada, uma outra, cuja perna direita fazia contrapeso, por estar esticada. E o interessante é que, de fato, a viva, assim diremos, ressentia-se daquela situação, pois apresentava inclinação muito visível. À medida do que se lê no Evangelho, o afastamento daquele espírito deveria endireitar a viva que sofria, menos já a tivesse tornado um caso patológico.

As mulheres tomaram um ônibus; e sempre a morta a ser do mesmo modo. Pusemos atenção na conversa das duas vivas, notando que terçavam língua contra alguém de seu conhecimento, de modo eficientemente anti-evangélico. Ao passar o veículo em frente a certo templo, fizeram refolgo, para o devido sinal da cruz e certa concentração mental. Depois, prosseguiram com o triste murmurar, maldizer.

Égas, lançando-me olhar significativo, comentou:

– Que é religião?

Nada respondi, por ser tudo demasiado evidente. Religião só poderá ser, saber cada vez mais e cada vez mais amar. Quem de fato sabe e ama, faz coisas assim?

Ao chegar ao domicílio, separaram-se as amigas. E nós seguimos a que nos interessava. Lá dentro, assim deu a viva entrada no seu dormitório, contrariando os nossos pensares, a morta largou-a e se atirou ao leito, numa atitude tresloucada e com gestos de espantar. Que trejeitos fez para tanto, com aquela perna esticada! Resmungou, gemeu, depois aquietou-se. Não sei porque, mas a viva olhou para o leito e murmurou, lamuriosa:

– ... Quem me dera poder deitar um pouco!...

– Há entre elas laço fluídico imperioso. – explicou Égas – Uma vive da outra e para a outra, mesmo estando longe. A morta foi-lhe prima muito afim; e como em pensamento davam-se muito, aí está o resultado. Se a morta tivesse tido outras instruções e melhores obras, muito bem. Mas, uma e outra viviam de comentar a vida alheia, desapiedadamente, procurando o que ferir. A maldizência é um vício e bem prejudicial.

Como a morta não nos visse, convidou Ambrósio:

– Façamo-nos visíveis?

Nossos pensares foram que sim; e ela chocou-se muito, mas alegrou-se depois, em virtude de Égas ter-se tornado luminoso, propositalmente.

– Vieram curar-me?!... Vieram curar-me?!... – principiou a dizer, sofregamente, procurando sentar-se no leito, o que não conseguia.

– Vamos levá-la para lugar melhor... Faz tempo que você desencarnou e vive a molestar sua prima. Não vê que só lhe responde quando deita e depois de deixar o corpo? Não percebe em si nada de diferente? Porque não procura entender?

Ela ficou a cismar por um bom tempo. Depois indagou:

– Qualquer coisa há de diferente... Mas, se já deixei a carne, como é que tenho corpo e paralisia?... Que adianta morrer, então?

– Ninguém se desfaz totalmente do corpo, porque há sempre uma razão para isso. O que se passa, é o deixar um mais denso em troca de outro menos denso. Haverá, porém, sempre um corpo, seja para gozar ou sofrer o quer seja. Não se turbe com isso, pois Jesus ressurgiu dos mortos, em espírito, e se apresentou com um corpo. Nem que seja de luz, mas todos temos corpos... Eis a verdade.

– E posso sarar?...

– Deve. Precisa sarar, porque precisa trabalhar. Um espírito não pode ficar para sempre assim, mormente quando, ao lado dos defeitos, apresenta características recomendáveis. Nós precisamos de trabalhadores. Há muita gente nas mesmas condições, e muita em piores, cujo tempo de purgação finda, reclamando atenções justas, como no seu caso, por exemplo.

– Os senhores são santos?!... – disse ela admirada, depois de nos estudar como melhor terá podido.

– Somos homens desencarnados, compenetrados de que religião é o fazer bem, por ser essa a disposição da Suprema Lei. Santo, genericamente, tudo o é. Compreenda isso, pois deve mudar de muito o seu modo de pensar, se quiser progredir nas coisas do Senhor, que são as coisas boas da vida.

– Seja feita a Vontade de Deus!... – concordou ela.

– A vontade de Deus, irmã Fabiana, é que identifiquemos a nossa com a Dele, da melhor forma, do modo o mais prático possível. Deus nos quer puros e sábios; e isso independe de sectarismos quaisquer. Pelo contrário, pois os sectarismos são entraves a uma vida de compreensão e amor. Por essa razão, isso sim, os povos e raças têm sido divididos, mantidos em diferenças e ódios recíprocos.

– Mas não existe uma Vontade de Deus que tenha de nos ser manifesta um dia, de modo intelectual? – tornou ela, vivamente interessada.

– Existe a que está dentro de nós, por ser desenvolvida e posta a funcionar. Quando uma ação nobre nos torna felizes, estamos sabendo que o bem a todos aproveita, e que devemos cultivá-lo ao máximo possível. E quando admiramos um grande saber, estamos com isso afirmando que é bom adquiri-lo. Eis, portanto, que temos em nós a natureza divina, o direito de personalidade, a liberdade de a organizar e a vastidão do ambiente para exercitar a gosto.

Bem chocada, disse a mulher:

– Não terei que comparecer ante um tribunal julgador?...

– A Lei Básica é o Código e sua consciência é o tribunal. De resto, fazendo para mais de quinze anos que deixou a carne mais densa, muito tempo teria tido uma outra qualquer forma de justiça, para preparar-lhe colóquio e julgamento.

– Tenho minhas vantagens... Fui da irmandade e nunca deixei de comparecer, salvo caso de força maior... – procurou defender-se ela, erguendo o tom da voz.

– Eu não disse que teria de abandonar a muitas idéias formadas, se quisesse alcançar bens perante a VERDADE? – advertiu-a Égas.

– Mas por que não posso ter minhas idéias? – replicou ela.

E Égas, manso, explicou:

– Poder pode, o quanto quiser; mas ter o direito de ter idéias não significa estar com a melhor ou mesmo com a idéia que no momento seja a necessária. O que é importante é o direito de ter idéias, porque é fundamental. Quanto às idéias, convenha com isto, podem não servir sequer para o monturo. E no seu caso, se o que deseja é contrapor à Soberania Divina a soberania dos seus argumentos sectários, digo desde já que pode isso fazer. Apenas, nos iremos, deixando-a entregue à vida que tem levado até hoje, desde a sua desencarnação.

– Creio que deveria ser ouvida por um tribunal!... – gemeu ela.

– Isso não acontecerá. Cada sectário do mundo teria o que advogar em seu próprio proveito, denegando para os outros direitos de justiça. Como, porém, toda a humanidade é que constitui a irmandade, quem por ela não evidenciar eficiência, não deve arrogar-se direitos que tais. Deus, que é tudo em todos, prescinde dos ímpetos sectários e exclusivistas em geral. Ser em Justiça e Amor universais, eis a regra do verdadeiro espiritualista. Porque, para o universo manifesto ser o que é, não pediu Deus, a Essência Básica, conselho a quem quer. Há pois, uma Justiça sem mácula que, por ser assim, prescinde dos estreitismos religiosistas do mundo. Convém ao espírito sondar, em si mesmo, o fato de ter sido mais ou menos amorável e sábio no mundo. Mas uma sabedoria e uma capacidade de amor, o mais universal possível. Fora disso, é claro, estaria havendo é divisionismo, por sectarismos quaisquer; e quem divide o que por Deus é lei geral, por certo que se macula e compromete. Foi esse o seu caso. Isto é, um dos casos. Porque outros mais existem, de ordens outras, que não nos cumpre comentar, porque são do conhecimento de sua consciência.

Égas fez silêncio, aguardando resposta, creio eu. Mas a mulher nada disse, perdendo-se numa contagiante ensimesmação. Depois de muito esperar, convidou ele:

– Vamo-nos, Fabiana, que Deus lhe deve merecer um pouco de respeito, mesmo sendo como o é, e não pelo talhe que Lhe gostaria de imprimir.

Ela estendeu o braço, sorrindo por fim. E nós três seguimos o pensar de Égas, atravessando barreiras, até atingir lugar regularmente feliz. Nos portais de mansão grandiosa, muitas mulheres felizes a aguardavam. A uma delas dirigiu-se, já curada, chamando mãe. Seus olhos pareciam só existir para chorar de alegria, de agradecimentos e dedicações.

NO DIA SEGUINTE

No dia seguinte, bem cedo, recebi uma carta da Provedoria da Região. Égas ma passara, acrescentando:

– Deve responder o quanto antes, se quer ficar nesta região ou demandar à que de fato lhe cabe. Se fica, entra para o quadro de servidores em certo departamento de atividade; se parte, vamos à cata de outro a quem beneficiar.

– Mas eu já lhe disse que fico! – respondi.

– Deve dizê-lo ao chefe da Provedoria, não a mim.

– Muito bem. Deve ser um bom homem. Terei prazer em ter mais um amigo. Devo fazê-lo por escrito?

– Como queira; mas seria bom ir pessoalmente.

– Vamos já? – resolvi.

E como Égas dissesse sim, Ema correu, dizendo querer ir também. E comentou:

– Gosto da presença dos seres superiorizados. Aqui não é como na terra, onde a superioridade é, na maioria das vezes, ocasional. Aqui, senhor Adão, os rótulos não prevalecem. Quem não é, não tem e de nada vale discutir em contrário.

Com aqueles dizeres, naturalmente, fiquei ansioso de ir ao encontro do chefe da Provedoria da Região. E afianço que, dados os recalques terrenais, fazia dele a idéia que se faz dos casacudos do mundo, onde as atitudes estudadas e formalidades protocolares encobrem deficiências de variada ordem.

Ao chegar pois à Provedoria, e ser introduzido na sala respectiva, deparei com um homem franzino de corpo, de sorriso amabilíssimo nos lábios. Ostentava um porte elevado, mesmo embutido numa simplicidade de encantar. Todos os seus traços eram belos, sendo seu olhar profundamente inteligente. Ao falar, sua voz ganhava modulações sonoras interessantes. De resto, um homem do povo.

– É com muito júbilo que o aceitamos como servidor desta região. Aqueles que abdicam de melhoras de direito, para poderem servir onde de fato há mais necessidade, muito mais de nós merecem respeito e gratidão – falou ele.

– Eu é que me sinto devedor de tudo, meu senhor. Encontrei nesta região, aquilo que me trouxe compreensão e me fez sentir, ao extremo, seja louvado, em vossas pessoas, pois sendo todos servidores da Sua Vontade, valem por leis sublimes, a que se devem subidos respeitos.

Quando Ema se chegou à porta, ele, pegando-a pela mão, fê-la sentar e dirigiu-lhe palavras de muita amizade. Quando logo mais aproximou-se Égas, que havia ficado em conversa no corredor, também se entregou a manifestações de urbanidade.

– Onde e quando viveu na terra? – indaguei.

– Fui professor num ginásio, numa grande cidade brasileira. Há uns cinqüenta anos que vivo por aqui, administrando estes serviços. Esta Provedoria é de serviços, e, como sabe, arranjar trabalhadores e servidores, e estar ao par do quanto temos por fazer, muito auxilia de certo modo, a quem quer enriquecer-se em bens que garantirão, para mais tarde, outras sortidas felizes.

E como seus olhos inteligentes se fizessem vagos, como quem olha longe demais para ser interpretado ao justo, arrisquei de novo:

– Deseja reencarnar e ocupar posto superior na orientação de algum povo?

– Sim. Tenho que voltar à carne. Assim depõe lei cíclica e, já que tem que ser, quero completar a medida com disposição nobilitante. É prova tremendamente perigosa; mas, confio no plano superior. Amigos me garantem auxílio em inspirações precisas. Se não olvidar as obrigações de consciência, cumprirei meu mandato e volverei para ocupar posto mais trabalhoso em região mais influente.

De todo o feito, ficou combinado que continuaria a morar com Agildo, assim mesmo trabalhando em conjunto. Como cada trabalhador recebia da Provedoria da Alimentação o de que necessitasse, deram-me o documento de direito. Assim mesmo para as demais Provedorias. Estava, pois, a contento, com trabalho e regalias.

À saída, convidou-nos o Provedor das Provedorias, para uma reunião espiritual a realizar-se num santuário da cidade, de mim já conhecido. Ali se faziam preces e se discutiam princípios. Francamente, ali se estudavam as preces e os princípios. Isso é o que de fato se dava, pois procuravam os mais ilustres, os mais racionais, livrar as composições e as idéias, das coisas piegas e obstrusas, das expressões lamurientas e dos estorvos concepcionais. Como todos somos vindos da terra, e como todos carreamos lastros idólatras no pensar e sentir, o trabalho de aferição era e é feito com aprumo discernitivo. Quem quiser notar o alcance do que digo, repare nas expressões viciadas em pieguismos, em babujas, em ronceirismos, que muitos espíritos enviam aos encarnados, por meio da canaleta mediúnica. É a tara do mundo que se expõe, por recalque operando nas vidas e nos milênios. Porque também por estas zonas da vida, a Deus mais se teme do que mesmo se compreende e se ama.

Que questão faziam e fazem ainda os revisores? Fazem questão de que o homem se compenetre de suas imensas virtudes em potencial, virtudes que jamais serão patenteadas à custa de choramingueiras babosas. Não foi para isso que fomos pelo ESPÍRITO ESSENCIAL tornados centelhas individuais manifestas, com direito à organização da personalidade. Sem a vontade do ser não quer contar com o SUPREMO TODO, e, isso significa que nos quer ver e ter em compenetração de deveres e direitos. As expressões que dizem ser os homens, de si, somente inferioridade, vício, crime, mazelas, execrandismos, etc, tudo isso é rebotalho mental que vem das anfractuosidades supersticiosas, lavradas pelo antropomorfismo degradante, no espírito, na bagagem intelectiva dos homens. Deus não quer pieguismo. O Cristo a ninguém deseja ver de joelhos. A VERDADE, empregando o termo como síntese geral, a ninguém pretende ter em postura rastejante.

A questão, pois, resume-se em dizer ao homem de que elemento é ele oriundo. E sendo genericamente divino, lembram-lhe dedicação ao AMOR e à CIÊNCIA. Como saber da divina origem é adquirir responsabilidade, cada qual procura conduzir-se decentemente, que é a religião do homem de bem. Porque Deus quer caridade e não sacrifício; dedicação e não oferendas idólatras; conhecimento e não peditórios lagrimosos; trabalho emancipador e não contemplações vadias e ocas em tudo. Oferecer gestos e palavras, saibam, não constitui religião nesta zona astral. Para fazer religião se precisa, viver em perene estado de compenetração das origens, e em franco desenvolvimento de trabalhos fraternais.

E foi isso ao que assistimos, à noite. Estudos de preces, análises de concepções; recitações, declamações, músicas, cantos. No final, seres de esferas mais elevadas se fizeram visíveis, tornando os espaços a coisa mais linda que até hoje pude ver! Cores e sons tais, como nunca supus pudessem existir, além das formas belíssimas que alguns deles projetavam no éter cósmico, como arabescos vivos e que se multiplicavam. Seres, cores, sons, vibrações, flores. Por fim foi cantado um hino de louvor ao Divino Monismo, por todos, por nós e por eles. E com a mentalização da SUPREMA UNIDADE, a nossa forma de terra e os céus, tão brilhantes se fizeram, que mal, muito mal, se podia olhar para aquilo.

O Provedor, ao encerrar a reunião, disse apenas:

– Encerrada está a nossa reunião, com as mesmas graças com que foi aberta. O que os cumpre é lembrar daqueles nossos irmãos que medram nas trevas, esquecidos de que em si mesmos possuem as claridades celestiais; esquecidos de que o Senhor lhes aguarda o pronunciamento da vontade desejosa de engrandecimento interno. Tratemos de instruí-los, tratemos de convocá-los a uma vida de amor!

AO RÉS DO CHÃO

Ao dia seguinte, pela manhã, recebemos três ordens de serviço. Vinham do Centro de Socorros. Um padre, uma mãe de família e um positivista, tais eram os espíritos com quem deveríamos encontrar, para os encaminhar.

O padre foi o primeiro com quem topamos, em zona inferior do astral, lugar onde todas as coisas medíocres da terra se haurem de forças. As coisas que dizem respeito às idéias e organizações prepostas. Porque nessas zonas revivem tudo e de modo extremadamente fanático. Impérios, religiões, políticas, trustes, cambalachos, egoísmos, sandices, etc. A animalidade campeia livre em tais zonas! E humanidades devedoras sofrem e purgam, nas mãos de chefes violentos e cruéis. Enfim, amigos, as duplicatas etéreas da terra compõem-se, das mais abjetas às mais divinas. E não há mistérios e nem milagres que façam qualquer coisa para isso ser ou deixar de ser; tudo é natural e racional. Tudo em ordem, portanto, para que cada qual tenha, segundo seus merecimentos. Por isso mesmo, quem tiver ouvidos de ouvir, trabalhe antes por crescer em as qualidades ingênitas, porque sem isso nada adiantam peditórios e lamúrias. Não somos filhos espúrios de quem quer; somos emanações divinas! Usemos a inteligência, usemos o sentimento, pois que essas faculdades não nos são por favor, e sim de direito natural.

Ao dizermos ao padre que da parte da Diretoria do Planeta lhe íamos buscar, para outra compreensão e melhores pronunciamentos de sua vontade, ele nos respondeu, secamente:

– Pois para sermos chefes e condutores de almas fomos prepostos, já da vida na carne! Não vedes que estou em franca função, outorgada pelo Senhor? Que faço aqui, que não seja cumprir mandato superior?

– Existem céus e céus e mandatos e mandatos, padre. Outros céus existem, que de si não são conhecidos, onde a religião se executa de outro modo e com outros objetivos. Mandato religioso não é privilégio de certos homens e certas classes ou organizações. Mandato religioso é obrigação de todos, em conhecimento da VERDADE e aplicações fraternais. Nas zonas superiores não existem destas coisas que por estes baixios se desenvolvem à vontade de qualquer déspota; nas zonas melhores, cada qual levanta no seu íntimo o tabernáculo da fraternidade cósmica. Ninguém tem a pretensão de precisar pensar pelos outros, sendo que cada qual dá de si o exemplo mais santo. O dever do melhor é sempre maior!

– E como sou sacerdote e não sei disso? Por que, então, não me deram função mais elevada em plano superior da vida? – irrompeu o homem, zangado.

– Falta de merecimentos.Veio ser padre déspota, em lugar e para gente que só isso poderia merecer. Agora chegou a hora de melhorar. Caso não queira nos atender, em si mesmo baixará mais em padrão, vindo a ter que migrar para zonas muito piores. Como devia saber, é pela vibração específica que o ser se coloca no lugar devido.

– Deveis mesmo vir da parte de Deus!... – monologou o padre, baixinho.

Houve silêncio por uns minutos. E a seguir, disse:

– Devo comunicar ao bispo sobre minha partida... Aguardem um instante...

– Não precisa fazer isso... O bispo já está a par de tudo – explicou Égas.

O padre sorriu, satisfeito.

– Vamo-nos? – consultou-o Égas.

– Por qual caminho? – volveu o padre, entusiasmado.

– Pelos caminhos do céu...

– Eu nunca pude fazer isso! Eu nunca tive esse prazer!...

E nos fomos, os três, para o lugar devido. O padre ficaria, por uns tempos, em região intermediária. Mais tarde, de conformidade com o seu desenvolvimento nas coisas da adoração em espírito e verdade, seria cambiado para a nossa região de habitação. Devo dizer que isso ele logo o mereceu, graças ao catecismo que lhe demos para ler, aquele mesmo que eu também li, como já vos disse. Demais, falei-lhe de mim mesmo, que padre também fora, por ofício na terra; lembrando-lhe que tive de abandonar todas as idéias sobre prerrogativas que imaginava de direito. E ele foi isso mesmo entendendo por si. Quando o conduzimos a uma sessão espírita, na casa de Jasmim, lembrando a relação da mesma com o fenômeno do Pentecostes, ele foi quem nos lembrou o sistema de culto dos Apóstolos, citado em Paulo na primeira carta aos Coríntios, capítulo catorze, afirmando ser o culto católico a corrupção prevista por Jesus Cristo, por ser a antítese do Consolador, no Pentecostes por Jesus estabelecido.

A mãe de família, fomo-la buscar no leito de morte. Doze filhos a cercavam, sendo que dezenas de netos teciam orações pela avozinha que se iria do convívio do lar terreno. Ninguém iria ter esperanças sobre possível cura, dada a ordem de doença que a acometia e o fator idade. As orações eram ao seu espírito votadas. E o ambiente era respeitável, porque muitos parentes, antes para cá vindos, muitos deles em formosidade de condições, ali presenciavam o abandono lento do corpo, por aquela que tanto bem havia espargido no mundo, em forma de cuidados maternais.

Já tinha eu visto coisas belas! Mas meu coração de homem da morte ficou suspenso, ao observar o que garante a um espírito, o apostolado maternal bem vivido. Não há dúvida que religião é o cumprimento do dever, por compenetração do sagrado mandato da vida, que resume em si toda a Soberana Vontade de Deus, ou do Sagrado Princípio que nos é Fundamento, Sustentáculo e Destino.

Assim como da terra adubada, de elementos em putrefação, levanta-se o arbusto que se orna em floriduras, assim foi ela subindo e ganhando forma humana definida, sob a tutela de gente destes países. Égas, o encarregado de cortar o liame fluídico, a pedido e por deferência a quem de bem mais alto lhe pedira, concedera em ceder o direito ao ato libertador. Destacada, pois, do invólucro esgotado, volveu os olhos a ele e disse, cheia de gratidão, testemunhando educação espiritual.

– Obrigada, muito obrigada, instrumento bendito!...

– Vamo-nos... – disse-lhe Égas, que tinha ordem de a não deixar no recinto, para poupá-la à angústia de certos transes, por via dos sentires daqueles que lhe deviam gratos serviços prestados no mundo.

Faltava atender ao positivista.

Este, pelo que lêramos em seu fichário, fora um homem de vida regular, como familiar e como cidadão. Não lhe tinha acontecido nada de anormal, pois só lhe sucedera ficar na própria casa, no seio dos familiares, onde se impertigava pelo fato de lhe não darem atenção. Isto, a princípio; depois, pelas conversas ouvidas, começou a matutar na possibilidade de ter de fato deixado a carne. E que fazer em tal contingência? Ele mesmo disse:

– Estando vivo depois da morte, cumpria reverenciar a vida e suas conseqüências. Tornara-me positivista em virtude de umas mazelas observadas na vida de um padre. Aquela coisa observada na infância, e mais as briguetas religiosas notadas na adolescência, acolitadas aos estudos de física e química, indicaram-me o positivismo como regra de fato. E não me envergonho disso, sem ser que ele não convida a pensar na imortalidade da alma, vindo assim a sofrer duras perdas em corolários que a esse axioma dizem respeito. Aqui estou, portanto, para tomar o rumo que bem desejardes. Não sou um santo, mas sei respeitar o direito alheio, sendo capaz de ser útil ao próximo, mesmo tendo que, para tanto, resignar a direitos pessoais.

– É um caso interessante! – comentei, dirigindo-me a Égas.

– O culto do bem não complica a quem quer, sendo que para respeitar a Deus e verdades daí decorrentes, precisas se fazem certas corroborantes. Tenho certeza que esse irmão adorou ao Deus que é impessoal, que é o Deus que é.

– Sempre atendi para o fato de haver uma Fonte Primária. Mas nunca supus viável a sobrevivência do espírito, em forma de personalidade. Pensava que se desfaria na Essência Básica, como pregam os panteístas. Eu era panteísta...

– O ideal seria o pantiteísmo, porque representa o monismo. Existem perguntas feitas, por um pensador, que exigem respostas interessantes. Tenho-as aqui no bolso, escritas, e vou enumerá-las, visto que o nosso homem bem nos facilitou o serviço, com a sua feliz maneira de pensar.

E Égas emendou, pouco mais ou menos, esta série de perguntas:

1. Deus seria uma individualidade?

2. Deus seria de fato Criador?

3. Como teria criado a tudo?

4. Teria usado de algum milagre?

5. Teria lançado mão dalgum mistério?

6. Que elementos teria usado?

7. Que são os mundos, os seres e tudo o que forma a chamada Criação?

8. Se criou, seja da forma ou por ter usado processo qualquer, que é o universo e como seriam seus limites, se os tivesse?

9. Poderia diminuir ou crescer o todo criado, o universo em geral?

10. Que seria Deus, na Sua Essência?

11. Reconhecendo nós os seis Estados Básicos, Espírito, Energia, Gás, Vapor, Líquido e Sólido, e seus matizes em dinamismos e densidades, como diríamos estar Deus, o Espírito Absoluto, em tudo? Sofreria em si limitação, pelo contato com aqueles mais densos estados de si mesmo?

12. Sendo, um alto espírito, virtude inteligente esplendorosa, capaz de produzir feitos e efeitos grandiosos, manifestações gloriosas em sons, cores, vibrações, etc, que poderíamos dizer de Deus, em Sua totalidade?

13. Que relação haverá entre Deus, o tempo e o espaço?

Que dizeis disso, irmãos? Como responderíeis a tais perguntas?

Foi ele mesmo que leu um trecho, nestes termos:

“É no próprio Espírito Divino que está a chamada Criação, por ser Deus a ESSÊNCIA-CAUSA. Só há uma ESSÊNCIA, assim diremos, que é ESPÍRITO, sendo em si mesma tudo, o que há de manifesto e imanifesto. Deus é em si mesmo tudo, como ESSÊNCIA impessoal, sendo a Chamada Criação, eclosão de Suas Virtudes, eclosão operada em si, por meio, modo ou processo que não podemos penetrar. Assim sendo, Deus é em tudo onipresente, por ser tudo modo de Deus exposto. Logo, Deus não criou, sendo que se manifesta em ordem infinitamente vária.”

– E quem poderia duvidar de que é parte do TODO? – indagou o ex-positivista.

– Sim – aparteou Égas – mas você não acreditava, porque não sabia, das coisas da imortalidade da alma e suas conseqüências. Logo, não basta saibamos que somos parte do TODO ou formas de manifestação de Deus. Há que atender para uma questão – como se deu, como se dá a manifestação inicial, na profundidade do TODO, para que no curso dos milênios nós tenhamos individualidades distintas? E que relação guardamos, nas profundezas de nós mesmos com a ESSÊNCIA TOTAL? O fato de a Lei de Equilíbrio surgir de dentro de nós, para nos qualificar, muito bem nos sugere que estamos ligados ao TODO, sendo reconhecidamente PARTES.

– Sempre ouvi dizer aos sabidos em espiritualidade, que bem se fala com Deus, por meio da própria consciência bem educada; isso prova que o liame existe, e que sendo PARTES, somos ligados ao TODO, por natureza – opinou o homem.

– Então, como é que podemos descrer da imortalidade? Não digo isso por atender ao seu caso; falo em tese. Pois sendo partes do que é infinito em todos os sentidos, como poderemos ser tão torvos em certos casos? – julguei bom dizer.

– Por falta de educação, que quer dizer falta de evolução. Mais uma vez fica provado, então, que somos parte e relação, contando com o direito de organização da personalidade. Assim, pois, seremos por natureza deuses, e por direito de individualidade, cidadãos do universo. Tomamos parte no que há de melhor, pois sendo de Deus somos de nós mesmos, cumprindo-nos não esbarrar na LEI GERAL, para nos garantirmos paz e glória. Daí, portanto, em virtude de lei de relação, ser o AMOR, ou a força de união, a lei máxima por atender.

O ex-positivista nos surpreendera com a sua lógica. Devia ter instrução a respeito.

Com mais algumas palavras, singramos com ele espaços, até deixá-lo no lugar citado na ordem de serviço. Era mais um irmão ganho, para os trabalhos de cooperação no programa de Jesus Cristo.

TRINTA DIAS DEPOIS

Aos trinta dias, de ordem superior, fomos à região intermediária onde havíamos deixado, em preparatórios educacionais, o padre. Tinha ele, em si, elaborado um grande serviço de identificação com a realidade universal, sem o que ninguém se liberta das tramas prisioneiras. Há que atender para esta ordem de pensamento – a Justiça Suprema não se filtra segundo os angustismos sectários dos homens ou dos credos a que se filiem os mesmos homens. Vir para a morte engalanado com as pomposidades teorísticas dos sectarismos religiosistas do mundo, nem mais e nem menos representa, que topar com barreiras vibratórias intransponíveis. Quem se não estender em pensares e sentires pela comunhão universal, também nada obterá de paz, sem ser na proporção do seu estreitismo mental. Medir, ou pretender fazê-lo, à Justiça Divina, pelo prisma dos conchavismos religiosistas do mundo, dos tempos ou das épocas, é crime de lesa majestade. É lesar a majestade interior, o sagrado direito de galgar os cimos da espiritualidade. Quem pensa estreitamente, portanto, se enclausura no próprio estreitismo.

E o padre, não mais ostentando as fingidas vestes com que no mundo passava por ministro de Deus, veio a nós, sorrindo e dizendo:

– Encantado com a vossa vinda!... Aguardava-os há dias... Fazia orações, desejando a vossa chegada, pois temos o que conversar...

– Com ou sem conversa, amigo, aqui estamos para levá-lo para melhores lugares, em virtude de ter correspondido aos desejos superiores – disse-lhe Égas.

O homem, ex-padre, estacou e se pôs profundamente meditativo. Tinha o pensamento longe, bem longe, quem sabe mais longe do imaginável, pois parecia estar com ele lá pelas profundezas de si mesmo, onde o homem consegue conversar com o seu Senhor.

– Tal é a realidade! – tornou Égas, simplesmente.

– Não olho para cima e nem para baixo, porque em Deus e para Deus tal não há, sendo Ele mais que a cosmogonia, onde disso também não existe; mas no templo sagrado de minha individualidade, onde Deus é FUNDAMENTO, rendo graças e me comprometo a ser útil – foi o que disse ele, repassando em emoção santificada.

De fato, suas faces banhavam-se em lágrimas de contentamento.

– Podemos ir – convidou Égas.

E o ex-padre fez sinal que sim, sem mover-se do lugar, a dois passos de nós. Em pouco nimbava-se, ultra feliz, pelos espaços. Com o viajar lento, fomos conversando. Minha vontade era fazer perguntas, o que julguei oportuno, pois ele e eu vínhamos do mesmo painel de atividades.

– Que tratos deu à bola, companheiro de práticas no mundo?

– Também foi padre?...

– Também... Infelizmente, também...

– Pensei muito e cheguei a uma conclusão, principalmente em virtude do catecismo que me deram para ler – explicou ele.

– Que confrontos fez? – inquiri, desejoso de particularidades.

– Primeiro dei-me a confrontar, como seria normal, entre o Cristianismo que Jesus Cristo viveu, curando, expelindo maus espíritos, confabulando com os bons, produzindo, enfim, toda aquela avalanche de fenômenos revelacionistas ou mediúnicos; depois, passando os olhos pelo original do livro “CONSOLADOR, O UNIFICADOR RELIGIOSO”, onde todas as revelações são estudadas, desde os Vedas, cheguei a uma conclusão.

E como não se pronunciasse, fui obrigado a indagar, ao que respondeu:

– Tudo aquilo me fez entender que sou tão onipresente para com Deus, para com o TODO BÁSICO, assim como o é Ele para comigo. E que nenhum de nós depende da tradição religiosa do Planeta para libertar-se da inferioridade, uma vez que para isso é preciso trabalhar no próprio eu, coisa que nada tem que ver com a tradição. A tradição, pois, como a reclamam os credos do mundo, em virtude do interesse dos seus proprietários, nada mais faz que torpedear o verdadeiro interesse do espírito desejoso de emancipação. Pelo menos, a tradição faz o homem perder-se num emaranhado de formas de pensar; exige do homem que pense por tabela. E quem pensa por tabela, como poderá compreender, faz valer mais a tabela que a si próprio.

– Você realizou um portento mentalístico! – observei, impressionado.

– O homem, de quando em quando, não deve apenas mudar de roupa... – epilogou o nosso homem.

Agora, bem o entendia, não devia perturbá-lo. Os panoramas deviam estar a impressioná-lo, com as suas belezas por vezes indescritíveis. E foi Égas quem me abordou os ouvidos, entre-dentes:

– Ele não decorou apenas; procurou avançar no terreno à vista... De fato, cada um de nós é, em si, mais que a tradição, o tempo e o espaço... As tradições, as épocas, as revelações, tanto podem servir de motivos de progresso como de retardamento, se o ser não se puder colocar acima de seus despotismos... No mundo, onde os egoísmos de todo jaez medram livremente, têm essas coisas muito cabimento; mas aqui, para nós, precisamos compreender as coisas tal como elas são. E se a tradição encravou o Cristo-carne na cruz, por ser intolerante e retrógrada, como respeitá-la? Que a respeitem os assassinos de quaisquer tempos!... Os que precisam de tabelinhas supersticiosas, os que carecem de termos decorados.

Resumindo, Gaspar, o nosso homem, ficou sendo meu companheiro de quarto. E os trabalhos prosseguiram, consistindo em arrebanhar almas aos serviços necessários, subtraindo-as aos trêdos países.

ESPECIFICANDO

A natureza complexa do espírito humano, julgado este do ponto-de-vista educacional, e a educação como recalque elaborado nas inúmeras encarnações, dá muito o que pensar. E dando o que pensar, não quer dizer que dê para se ter a coisa por resolvida. Pelo contrário, pois às vezes, aplicando para com alguns irmãos a tudo de que se disponha, em conhecimentos e boa vontade, perde-se ainda assim, o tempo e o latim...

Que fazer, então, ou de que recursos usar, quando alguém pede aos Poderes Superiores auxílio, obtém deferimento, e este encerra em termos que lidar contra irmãos ultra-endurecidos? Nada mais e nada menos que recorrer à força, que lançar mãos de serviçais para tanto dispostos, por inferioridade evolutiva; nada mais que prender, trancafiar em xadrezes, que submeter a duros momentos.

Muita gente, não ouvindo a força da razão, vê-se na contingência de ceder à razão da força. E é interessante, porque tudo é modo de se dizer as coisas. Só que a linguagem a ser usada, define a própria pessoa. Nem todo e qualquer serviço, portanto, oferece comodidade e prazer a certos obreiros.

Gaspar, o colega de quarto, ingressava valorosamente pelos campos do mentalismo o mais avançado. Fundia-se na consciência da unidade com a ESSÊNCIA BÁSICA, ou Deus, vivendo mentalmente, de forma tal ao Monismo Divino, que suas naturais forças latentes se expunham, por vezes, de modo esplendorosos. Em pouco apanhara o hábito das retiradas para as montanhas de nossa região, onde ia praticar o êxtase, o enlevo d’alma. Creio que nele despontava alguma reminiscência, o gosto de práticas em antanhas vidas exercitadas. E quando de lá vinha, sua fisionomia se apresentava com aspectos de diafânicas expressões. Seu semblante revelava um como dardejar de valores psíquicos irrecalcáveis. E por notar-lhe as sublimações em pouco reveladas, falei-lhe no assunto:

– Quem lhe recomendou esses proveitosos exercícios espirituais? Noto que muito lucra com isso.

– Procuro, nos retiros, sintonizar o mais possível com a ESSÊNCIA DIVINA, à qual por natureza somos ligados e de quem somos parte e relação. Contudo, como nos concede ELA um direito de individualidade, e por este o seguimento, que é o de formação do próprio caráter, sei que é bom nos empregarmos, sempre que possível, no serviço interno de identificação, por sintonia. Vou, indo fazer o meu retiro, à FONTE ORIGINÁRIA. Sei que os grandes vultos do mundo, os grandes reveladores, todos eles, e Jesus Cristo mais que ninguém, praticaram tais exercícios. É preciso que o homem entre em si mesmo, de quando em quando, para poder, conversando consigo mesmo, conseguir conversar com o seu FUNDAMENTO. E lhe asseguro, Adão, que aos poucos conseguimos estabelecer contato com aquilo a que chamarei a LUZ DIVINA. Então, por força de hierarquia, creio eu, temos a visão dos mais elevados seres e o sentimento de universalidade a nos dominar o todo. Espaço e tempo deixam de ser. Tudo é glória e presença eterna. E é assim que vimos a ter certeza, não mais por raciocínio, mas sim por viver, que somos deuses, por de fato sermos emanações divinas. Pensar no Divino Monismo já é mais do que pertencer ao credo monoteísta; mas, viver pelo êxtase, pela sintonia, ao DIVINO PRESENTE; isso já corresponde a muito mais.

– Belo! Muito belo! Mas quem te ensinou a fazer isso?

– Um amigo de mais alto, companheiro de jornada em uma vida que vivi na Índia. Éramos muito ricos, mas, em que pesasse tal entrave, fazíamos os exercícios de contínuo. Um brâmane nos ensinara a começar aos poucos. Depois...

– E onde está ele?

– Por umas três vezes já me veio visitar, tendo-me recomendado ir às montanhas, onde a introspecção espiritual pode ser mais intensa. Jesus mandou entrar no quarto e fechar as portas. Compreendem isso como prática comum de ensimesmação. Contudo, a realidade é sempre a mesma, porque o espírito é sempre espírito. Onde melhor convier, assim se faça. No quarto, no deserto, na cidade, nas montanhas, nas cadeias, nos sanatórios, etc. O espírito precisa saber valer-se das ferramentas que tem em mãos, e não daquelas que poderia ter. Eis a regra boa.

Num repente, um homem vestido à hindu, se fez presente. Era simplesmente bela a sua vestidura, porque brilhava além do comum. E sua face era como transparente, sendo que seus olhos espargiam um que atraente ao extremo, fosse pela doçura evanescente, fosse pela pureza que irradiava.

E falou conosco, na nossa língua. Porque ainda falamos nosso idioma e aqueles aprendidos. Ele, pois, nos falou em português. E ao lhe agradecer a visita, assim se expressou, pouco mais ou menos:

– Como quereis julgar-me tanto, se a SUPREMA ESSÊNCIA é tudo em nós e não se faz importante? Então, porque seja eu um irmão avançado em pureza e sabedoria, sou mais em natureza e destinos? Ou constitui, acaso, algum favor que vos venha visitar? Não ensinou o Mestre que o maior é apenas quem tem obrigações de servir mais?

– Sim, grande amigo, sabemos disso; mas sentimos em nós espontâneo desejo de agradecer, a quem com suas virtudes despertas, em nos visitando, nos infunde cada vez mais firmeza e anseios de progresso.

– É que tendes, do mundo, o lastro das reverências protocolares. Sinto que é muito sincero no que expressa; mas peço o obséquio de não mencionar, em palavras ou gestos, qualquer sentimento de reverência que lhe ocorra. Gostamos, todos nós, porque gosta o amigo também, de sermos amados sim e exaltados não. Prossigamos, portanto, em nossa conversação, como bons irmãos e melhores amigos.

– Falávamos de si, Moandas, quando chegou... – disse-lhe Gaspar.

– Eu não cheguei, pois já estava aqui, oculto numa gama mais etérea do elemento cósmico. Como deveis ter estudado, o éter se compõe de gamas ou extratos. E nós, por hierarquia, nos identificamos com uma ou outra gama, obrigatoriamente. Hierarquia vale por identificação, portanto, ou por lei sintonizante. Eu estava oculto em gama mais etérea. Assim é que fazeis, também, para escapar às vistas de quem não vos convém a presença.

– E que pretendia? – tornou Gaspar, vivamente interessado.

– Convidar o amigo Adão para uma experiência. Precisamos aprender a amar muito mais, e, o único processo é evoluir mais. Como sou o chefe de certo departamento de instruções, aqui vim a trabalho, mais do que em visita.

Intensa alegria me invadia o ser. Mas fiquei firme, sem dar mostras de um fervilhar que me ia pela alma, por atender ao seu apelo. E ele, assim falando, foi levantando-se em sinal comum de despedida.

– Mas eu aceito a prova e... – acudi em dizer, pensando que se ia sem antes combinarmos o onde, o como, o quando, o para que, etc.

– Sim, já sei que quer. Não tenha receio, portanto, que o virei buscar assim chegue a sua vez. Todos têm o mesmo direito, e, há muita gente na sua frente... Ou você já foi beneficiar a alguém fora de tempo e oportunidade? Porque havendo uma justiça natural que emana do próprio ser, também existe, para complemento, uma que é intelectual e organizada. A de dentro faz o mérito ou o demérito no próprio ser; e a organizada intelectualmente, presidida pelos que de direito, essa toma a feição que sabemos, de ordem judiciária exterior. Nem poderia haver só a interna e nem só a exterior e organizada. As duas se completam, para efeito de socorros, de programas, de iniciativas, quer para os seres em particular, quer para os povos, ou para as humanidades. E quando a Justiça Exterior se pronuncia, quando os conselhos tomam iniciativa, é porque a Justiça Interior assim o exige ou determina. Quem, pois, quiser ter da Justiça Exterior, dos conselhos estabelecidos, atenção ou amparos, que faça por ostentar padrão superior de ordem psíquica. Porque a Justiça Interior, essa é a primordial.

– Você me esclareceu num ponto que muito me fazia pensar e nada concluir. O que disse muito me elucidou, caro Moandas – disse-lhe Gaspar, satisfeito.

Também tive grande vantagem em ouvi-lo, pois vivia a parafusar em mim, como é que sendo tão mencionada a Justiça Interna, para socorrer e encaminhar moviam-se as legiões prepostas. Tinha de haver, em verdade, uma relação indiscutível entre a Justiça Interna e a Justiça Externa, entre a que parte do vibrar do eu e a que é mobilizada pelos chefes superiores. Estava, pois, imensamente satisfeito. Era a primeira prosa, e Moandas nos encantava. Porque, embora os ensinos ambientais já absorvidos, não é tão à toa que se largam conceitos adquiridos em anos ou séculos de educação à base de misteriosidades e de milagrismos, como o é o meu caso.

Como Moandas tornasse a fazer menção de partir, indagou-lhe Gaspar:

– Como se explica, então, que seres tornados monstruosos, habitantes de tredos abismos, sejam socorridos, sendo que jamais por si seriam capazes de enveredar para as conquistas vibratórias merecedoras?

– Nestes casos, e dão-se aos milhões de milhões, o ser não conta com livre escolha para a reencarnação em vista, ou mesmo algumas reencarnações. São-lhe impostas condições rígidas, pois a ninguém será dado, impunemente, achincalhar ao que em si possui de evolução organizada. Assim como se faça o ser bruto, à revelia da Suprema Justiça, assim à sua revelia terá que purgar e re-equilibrar. Bem aventurados pois os que exercitam o bem, independentemente de pensar em recompensas. Estes possuirão mais, porque mais estão a dar, em simplicidade de conduta.

– É deveras interessante o que nos ensina – falei-lhe, evidenciando o que de prazer me causara a sua elucidação.

– Pelas instruções já fornecidas aos encarnados, sabem eles muito bem sobre esta ordem de questão. O mal é que vocês dois se ressentem de conhecimentos básicos de doutrina. Sabem muito de ordem prática, possuem bagagem respeitável em matéria de consciência das coisas superiores, mas, infelizmente, falta-lhes técnica. Nos detalhes, são vazios. Vêm a máquina, mas não lhe conhecem os dispositivos mecânicos internos. Falta-lhes experiência apenas.

– Bem gostaríamos de saber bastante! – observou Gaspar.

– Aqui você está dizendo isso; na terra, por razão qualquer, importava defender o igrejismo à custa do qual supria o bolso, o estomago, a vaidade hierárquica, etc. Acho bom se aprontem para voltar à carne... É uma grande coisa...

Confesso que estes dizeres de Moandas me abalaram profundamente. À simples lembrança de uma vida por entre os fanatismos do mundo carnal, minha alma confrangeu-se toda, presa de mil ressaibos tristes e indecifráveis, que do subconsciente se alçaram. Olhei para Gaspar e o reconheci profundamente chocado. Causava piedade o seu estado de alma. Quase chorava, o pobre.

Moandas, em nos vendo tristes, em nos sentindo abismados em nós mesmos, disse com gravidade e em tom profético:

– Mas acontecerão coisas, antes, que vos deslumbrarão. Vereis e ouvireis a qualquer coisa nem sonhada. Isso, de grande alcance estimulativo, por certo que vos há de suceder.

E partiu.

De minha parte, embora uma nova encarnação se me afigurasse um monstro por enfrentar, também alimentava na consciência a grata satisfação de contar com outros possíveis recursos, como, por exemplo, obter facilidade de ambiente facultativo, isto é, onde pudesse, desde a primeira infância, haurir, sorver elementos de melhor formação espiritual. Já tinha ouvido dizer, nos círculos amigos, de alguns que marchariam para a carne, com garantias de ambiente instrutor favorável. Reencarnariam em ambientes espiritistas, de onde usufruiriam grandes vantagens, em conhecimentos, em assistência mais tangível e convincente. Também, em sendo Moandas trabalhador em altas esferas, não devia pugnar por nós, nalgum sentido? Tinha feito duas promessas, ambas vagas, mas definidas em responsabilidade. E eu confiava nisso tudo, porque o alcance moral do comprometido era elevadíssimo.

E fomos ao primeiro serviço em vista. No que consistia ele? Apenas, porque é sempre o caso, ter que socorrer a um irmão encarnado, na pessoa de um desencarnado que o comprimia entre dores e angustioso estado de alma. Procurando o homem encarnado, por quem fora feito pedido de auxílio em uma das sessões da casa de Jasmim, encontramos também o verdugo. Não estava agarrado, como um doente à sua mágoa, mas sim ao lado, presa de ódio cruel, de vendita implacável.

De onde vinha a razão para um tal proceder, se razão pudesse haver para a vingança? Vinha de longínquos dias, segundo o que rezava a documentação. Entretanto, tudo se cumpria à risca, segundo compromisso feito pelo encarnado, antes de envergar sua fatiota de carne. Da parte do desencarnado, porém, muito mais enegrecido, muito mais chafurdado em trevas consciencionais, tudo falhara, pois não conseguíamos convencê-lo, subtraí-lo aos assaltos da fúria interna desenfreada. E que fazer? Apenas, porque é também o caso, reforçar o encarnado em sua confiança na assistência do Senhor, outrotanto empregando esforços, para solapar os ímpetos miserandos do algoz invisível. Depois, valendo-nos de quem para tanto ao dispor, arrebatá-lo, trancafiá-lo em cadeia, fazê-lo passar pelo cadinho das experiências, dos confrontos, das vicissitudes alertantes. Nossas cadeias o são naturalmente, assim mesmo contando nossos serviços com jatos energéticos potentíssimos, esguichos de água altamente eletrizada, etc. Tais empregos forçam o despertar da razão equilibrada. Queimam e eliminam recalques venenosos. Desbaratam fixações mentais criminosas. Dispomos, pois, quando para tanto indicam as setas da orientação superior, de mil modos de crisol, com que forçar o depuro de mentes encouraçadas no mal. Não depuro no sentido real, redentor, completo, que esse só à custa de outros esforços são conseguíveis; mas pelo menos, eliminação de desejos hediondos, truncação de disposições escabrosas. Por vezes, e em que proporção isso se dá, a mudança se processa sob o manto do terror, sob o pálio da covardia. Valentes, algozes, vingativos, cruéis elementos, cedem sob o terror de sujeições empregáveis. Enfim, o nosso tutelado foi liberto do seu invisível algoz, inimigo doutros dias. E não o convencemos pelo mérito intelecto-moral das idéias empregadas; vencemo-lo à luz da força! O argumento plausível foi o recurso ao exercício da truculência. De mais alto determinaram, assim foi feito, tudo terminou bem. Porque os dois ganharam melhores encaminhamentos; um libertou-se de triste jugo astral e o outro compenetrou-se de melhores modos de auto-emprego. Chegou à melhor conclusão – a de que todo o bem decorrerá sempre, do melhor emprego que fizermos de nós mesmos.

VISÃO DO SENHOR

Basta se tenha um corpo com necessidade de repouso, para que implicitamente se possa ter a certeza de que o espírito o possa deixar, por momentos. Nossos organismos estão em relação direta com nossas hierarquias psíquicas; mas são corpos materiais! Assim como em qualquer plano de vida a densidade da matéria corresponde ao padrão hierárquico espiritual, às possibilidades e necessidades dos seus habitantes, assim se dá com os corpos – estão na proporção direta às necessidades dos indivíduos.

Temos, na nossa zona, o que importa dizer na nossa condição evolutiva, necessidade de dormir. Podemos sonhar, temos que sonhar, portanto. E como nesse campo as coisas vão entre a fantasia e a realidade, temos fantasias e realidades ao nosso dispor. Nem sempre um sonho é apenas um sonho, assim mesmo como, nem sempre é mais que fantasia, isto é, devolução das impressões e imagens recalcadas nas células cerebrais. Também, não é difícil ouvir a alguém dizer, com acerto, que teve um sonho que não fora apenas um sonho. Isso, também se dá conosco. E é o que vou relatar, chamando a atenção do leitor para este particular interessante – Gaspar tivera o mesmo sonho, na mesma noite.

Fomos procurados por minha mãe, que viera em companhia de Moandas, convidar-nos para um retiro espiritual. E partimos para lugar nunca antes visto. As belezas de nosso plano estavam ali muito superadas. O casario espraiava-se pelos confins horizontais, todo ele matizado em coloridos deslumbrantes. A matéria parecia feita de bênçãos celestiais, o ar tinha a natureza dos néctares, o céu deixava se vissem os mundos, enormíssimos, como se postos ao alcance do mais potente telescópio imaginável. Ou nossos poderes de ubiqüidade estavam altamente despertos, ou um poder qualquer da energia cósmica nos estava facilitando aquele espetáculo. Era apenas um sonho? Talvez. Mas eu sabia que estava sonhando, então. E Gaspar também me falou da consciência do estado, quando relatou ocorrido, horas depois.

No centro daquela cidade de milhões de quilômetros, toda ela edificada entre flores e rios de colorações e aromas inexplicáveis, havia uma praça. Foi para o centro dela, que por sua vez ficava no centro de imenso e lindíssimo lago que refletia as radiações dos enormes mundos à vista, com seus tons variadíssimos, que nos encaminhamos. Não sei como entramos; mas sei que em dado momento, lá dentro nos achamos. Seus habitantes, comparados conosco, eram como verdadeiros anjos. As roupagens eram tecidas de luz! O esplendor pessoal atingia às raias do inimaginável!

– Venham. – disse-nos minha mãe, em tom meigo – Estamos contando com uma graça do Senhor, da qual todos teremos de aproveitar alguma coisa, em nossas futuras romagens pela carne.

E meu pensamento volveu-se para aquela conversa de Moandas, repentinamente. A questão-motivo devia ser a futura reencarnação. Procurei ver e ouvir, entender e sentir, do melhor modo. Queira aproveitar a lição, queria sorver o máximo possível daquela graça em sentido ilustrativo, daquela imersão no sublime.

Quando demos entrada em vastíssima sala, já nos tínhamos frente ao Planeta Terra, visto como ao natural, em não sei que jogo de imagens refletidas, ou inculcadas por algum projetor, no imenso cristal que cobria a parede posterior do imenso salão. Ali estava a Terra do presente, que se foi dando em marcha-à-ré evolutiva. Regrediu, aos poucos, até quase ao estado de nebulosa, onde já se via forçando a pruridos de movimentos. Depois, como que para deixar em nós a idéia da UNIDADE CÓSMICA, sumiu-se por entre o coágulo de mundos em movimentação pelo infinito. Foi um espetáculo indizível! E em seguida foi reaparecendo, reaparecendo, como a Terra das geleiras, que não eram totais. Seus dias eram séculos, porque nos atínhamos ao fator evolução. Humanidade é que nos convinha! E a humanidade apareceu muito mais tarde, mesmo sendo na condição rudíssima, como manadas de seres fauciosos, broncos, a lutar continuamente uns contra outros e todos contra o meio, a fauna animal medonhamente desmesurada. Aos poucos, deram-se as primeiras divisões. Repartiram-se em como manadas. E foram aparecendo, também muito lentamente, as características raciais. A terra chegou a ser quase totalmente habitada por aqueles clãs primitivos, porque o nomadismo os tangia a tanto. Meteram-se mares e rios a dentro, em armaduras de madeira, vindo a ser comidos por animais aquáticos e anfíbios, que os assaltavam. Mas alguns atravessavam, varavam dificuldades, penetravam sempre. A configuração dos continentes era muito outra, embora as águas constituíssem quase tudo. Na Terra de hoje, muita água deixou de ser.

Depois de certo tempo, milhões de anos, talvez, de vida primitiva, nômade ao extremo, apareceu no mapa demográfico planetário, qualquer coisa diferente e marcantemente significativa. Foram aparecendo os caracteres identificadores de uma influenciação superior. Os dias seculares apresentavam reações evolutivas consideráveis, embora a relatividade dos movimentos. Deve ter sido a influência adamita, o efeito das legiões reencarnantes no seio do evismo, da raça primitiva.

Com o rodar do globo imenso, mondava na mente dos seus habitantes, divididos e subdividos em clãs e subclãs, o fervilhar das guerras e dos assaltos! Os homens nunca foram mais que animais inteligentizados, igualmente carnívoros, capazes de execrados feitos! Até hoje, que são, como vivem? Não faz o homem o seu preparo bélico, apenas mais inteligente, com relação ao animal inferior? Pois jamais deixou de ser assim, embora o atraso de outros tempos. Nunca viveu em paz e pouco por isso se deu a fazer, abstração de alguns missionários, de alguns lanços consideráveis, mas isolados, força dos por certos vultos a isso prepostos.

E vimos o aparecimento da era cristã. Isto tudo foi muito mais particularizado. A caminhada do Cristo por entre a humanidade, o que deixou de marcas na parte sólida e nas zonas astrais, isso nos foi muito mais detalhado. Jamais poderia morrer uma tal semeadura, dadas as condições em que fora feita. Quem com tanto amor e com tanta dedicação serviu, quem com tanta lucidez encarou o problema da civilização, dos destinos humanos, só poderia vir a ser triunfante! Para que o Cristianismo fenecesse, como tantas centenas de teorias feneceram, seria preciso que a própria Terra deixasse de ser!

Quando a Terra do presente sumiu do imenso cristal, a figura de Jesus Cristo apareceu em grande esplendor de glória, rodeada de nuvens de seres altamente divinizados. Sons invadiam os espaços. E Ele se fez bem próximo, para dizer com extremos de inteligência e bondade:

“PRECISO DE VERDADEIROS DISCÍPULOS; DE IRMÃOS QUE SAIBAM AMAR”

E acordamos, sem saber como saímos de lá. Ao sairmos do aposento, dei de frente com minha mãe. Por ter estado com ela, pouco antes, naquela visão sublime, não me comoveu tanto a sua presença de fato. Crescido em ânimos, falei-lhe do ocorrido. E ela me disse que Moandas lhe havia falado nessas coisas, dias antes.

Quando, ao tomarmos o costumeiro suco matinal, chega Moandas, sorridente e feliz, como de natural. E sua pergunta primeira foi sobre a visão.

– Foi uma graça o que nos aconteceu – respondi-lhe.

– Os encarnados também são brindados, às vezes, com instruções assim. O que dificulta a compreensão é a tendência ao simbolismo, em virtude dos recalques de imaginação e imagens, próprios aos que vivem em planos muito relativos. Contudo, como um desenho vale por mais de mil lições orais, como já disse alguém, toma-se sempre essa medida. E mesmo quando falhe na interpretação, serve a visão superior de estímulo. Creio que a visão do Mestre lhes terá feito muito bem, pois, não?

– Temos por certo que devemos voltar à carne... – comentou Gaspar.

– Mas com grande lastro de influências de nosso lado! – confirmou Moandas.

– Tínhamos medo... Por isso nos prepararam a visão consoladora... O orbe sob a tutela do Mestre precisa de trabalhadores do progresso. Vimos a Terra desde a sua formação. Vimos o aparecimento do homem sobre a Terra. Vimos-lhe a marcha lenta em busca da civilização atual, lidando em si mesmo pelo progresso.Vimos o quanto falta para a colimação prevista no Apocalipse. Vimos a Jesus, por fim, pedindo trabalhadores, muitos trabalhadores. E estamos dispostos a trabalhar... O que pediremos, porém, é para que nos facilitem encarnação em ambiente espiritista para que possamos trabalhar em nós mesmos contra a embalagem clerical que tanto defrauda no espírito a tendência natural aos melhores conhecimentos. Queremos agir como cristãos e não como vendilhões de templos. Queremos reviver feitos mediúnicos, patentear o Consolador, aprender e ensinar a lição que a Revelação tem por obrigação ministrar. Não queremos mais, em nome do Senhor, negar a VERDADE que ele viveu, traficar com coisas inventadas por homens, difundir paganismos embrutecedores! Chega de atraso! A humanidade só não mais devia comportar organizações clericais, idólatras, embrutecedoras do senso de progressividade. Outro pão, mais forte, outras comidas é do que precisa!

E teria ido longe, na exaltação de ânimos, não fora a chegada de Ambrósio, que de papelada em punho, convidava a trabalhar. Cada qual procurou seu rumo, tendo ficado combinado que Moandas e minha mãe, à noite, viriam palestrar conosco.

– Não será tão cedo que tenham de voltar à carne... Muitos serviços haveis de prestas ainda, e muita coisa por ver e aprender, antes disso se dar. Porque tereis de ir em função de boa envergadura – disse-nos, ao despedir-se, Moandas.

AO RÉS DA CROSTA

As estultices formais, os supersticiosismos, a crença nos cabalismos, o culto da idolatria, campeiam no plano astral, nas zonas inferiores da vida errática, nos círculos comprimidos pela involução, com muito mais ardor, muito mais sofregamente do que possa parecer ao estudioso superficial das coisas deste lado do véu. E não sei, dada a tremenda radicação do idolatrismo nos recessos concepcionais humanos, até quando isso perdurará. Regiões existem, como já tivemos oportunidade de cogitar, por as termos ido sondar de perto, onde a Religião ainda espera tudo de um religiosismo o mais tredo, o mais rampeiro, o mais caladamente vicioso.

Não é possível dar passe de mágica! Mas, para quem se compenetra da necessidade de elaboração interna, para que a luz se faça, e vê e sabe de trilhões de seres que as aplicam em fanatismos doentios o quão supersticiosos e idólatras, a idéia que afronta à mente é a de recorrer a algum possível gesto dessa ordem. E é porque o atraso causa pavor! Quem conhece o que se passa num terreiro, onde o candomblé campeia solto, ou nas macumbas onde os amuletos fazem mais que tudo, ou nas baixezas onde pinga e fumo, pólvora e quejandos outros do mesmo teor se fazem primícias, para que repelentes seres se dêem a pintar nojeiras, por intermédio de faculdades que deveriam ser antes de tudo respeitadas, não faz idéia sequer, do que ocorre por estes planos, de onde surgem os elementos que formam nas dianteiras de tais engodos, daqueles que aí se ocultam por detrás das barreiras que a carne representa, cerceando o melhor alcance dos sentidos.

Temos de tudo e de todas as marcas. E dá o que pensar a reforma intelecto-moral do mundo! Quando será a Terra, amigos, um mundo onde não haja dessas imundícies, nem nos quadros da carne, nem nos painéis do aquém túmulo? Difícil, muito difícil é emitir uma opinião. No entanto, para isso é que se trabalha. Reclamam de nós EDUCAÇÃO; e sem ela nada se poderá fazer. Ela é, no entanto, fator que deve começar a ser cuidado nos círculos carnais. Educar em todos os sentidos, para que não venham para cá, mais torvos do que até aqui têm vindo, todos os dias, às dezenas de milhares! Sabeis que deixam a carne, por dia, mais de cem mil irmãos, e que desses, limitadíssimo quociente o faz em condições respeitáveis? Uns são fanáticos pela letra dos textos; outros pelas bugigangas compradas aos cleros; outros pelos negativismos em geral; outros porque decididamente procuraram contatos com os representantes das trevas; outros porque, embora bem intencionados, tangidos pelos decretos de homens, abandonaram o culto da DIVINA PRESENÇA, afastando-se de Deus, cavando em si mesmos profunda vala. Porque tendes de compreender, que o culto de um Deus antropomórfico, exterior, já é falha notável na organização psíquica, já é caminho franco para as idolatrias as mais repelentes. É por essa brecha que entram e fazem morada no caráter do homem, quer as parvalhadas clericais, quer os vícios negregandos, quer as insinuações de agentes maléficos dos baixios astrais. Onde o homem em si não respeita a condição de templo divino, aí mesmo penetra e se radica, a tiririca daninha. O olho interno, como o proclamava o Cristo, deve estar sempre aceso em suas luzes básicas. Que pense para longe o homem, que transmita suas ondas mentais para os confins das gamas etéreas do Planeta, quando pretenda dirigir-se a um irmão qualquer; mas que se sinta templo de DEUS ESPÍRITO E VERDADE, quando tenha de pensar em Deus!

E é mil vezes mais decente, que viva em ESTADO DE PRECE, pelo perene sentir em si a SOBERANIA DIVINA, e o culto do AMOR, do que andar repetindo fórmulas viciadas, cabalísticas, supersticiosas, intelectualmente idólatras! As emissões mentais, que são ondas de força transcendente, não devem ser feitas sob o pálio nefando de supersticiosidade alguma. Sendo Deus presente, a válvula progressiva a reencarnação, os instrumentos de progresso o culto do AMOR e da CIÊNCIA, a Religião com “R” maiúsculo é FRATERNIDADE ESCLARECIDA!

E é isso o de que precisamos, para saneamento dos baixios carnais e astrais. Só com esse material é que conseguiremos transfundir a lameira que enfeia o nosso belo mundinho, pois que ele é maravilhoso em dádivas. O Senhor nos conferiu três qualidades fundamentais – individualidade, valores divinos em potencial e direito de iniciativa própria. Cumpre-nos, pois, alertar-nos e a quantos possamos, nesse sentido. Não durmamos, que a força tremendamente coerciva dos movimentos cíclicos, está a nos bater às portas d’alma, bradando por renovo inadiável. É hora de tresmalho ou de reunir! De duas uma, para milhões de milhões de seres. A lei migratória é lei como outra qualquer; comporta em si tudo para executar o que lhe compete. Todavia, poupar a milhões o desprazer de romagem por mundos onde a civilização é ultraembrionária, constitui ação digna. Nem foi para menos do que isso, que muitos enfrentaram cruzes de variantes tons e modalidades. Saibamos, pois, honrar a tais instrutores, começando por nos respeitar como a emanações divinais, onde a DIVINA PRESENÇA deve ser, sempre e para todos os efeitos, a LUZ PERENE, na conscientização de nossa personalidade. O sentido lato de Religião é religação consciente, é entrosamento perene, é movimentação sintonizada, é participação franca na obra universal. Ninguém será jamais religioso, sem que tome em si a consciência de que é cooperador na ordem manifesta, que é ao que se diz Criação. O Cristo veio à carne para ensinar que o PAI está no FILHO; isto é, o CRIADOR na CRIAÇÃO e vice-versa. Veio para ensinar, do alto de Sua Cátedra, a lição sublime do DIVINO MONISMO, contra a qual rocha viva se hão de rebentar, mais cedo ou mais tarde, todos os ídolos do mundo, espirituais, morais, mentais, intelectuais ou materiais!

Confrontem, pois, amigos, a essa doutrina, com tudo ou quase tudo que campeia pelo mundo, dando-se a chamar religião. Passem para esta banda da vida e mergulhem vossos ideais de espiritualidade pura, pelos antros abismais, pelo corre-corre de milhões de vagamundos desencarnados, que ao lado dos encarnados rondam, em adejos malsãos, a tudo quanto é inferior! E sem Jeremiadas, de fronte erguida, respondam, se isso haveria, se tivessem cultivado esses escalões das trevas, ao que Jesus-Cristo ensinara, desde que ao mundo enviara emissários, desde os Vedas, os Budas, os Krisnas, os Ramas, os Hermes, os Zoroastros, etc. Porque tais reveladores da VERDADE, sempre o fizerem à luz do mediunismo melhor cultivado; e se quereis duvidar desses arautos do Diretor Planetário, contemplai de vosso próprio palanque experimentado, o arcabouço que Ele mesmo levantou no mundo, à base de contato entre os dois planos da vida, pelo mediunismo mais santamente posto a funcionar.

Eis do que vos falo, eu que fiz da fé um meio de vida; eis do que trato, ao poder confabular convosco, por sentir muito o tempo perdido, o tempo empregado em propagar o desvirtuamento do Cristianismo! Voltai, pois, para aquele sublime mecanismo de que é modelo inatacável o feito do Pentecostes. E tomai por medida a lição de Paulo, nos capítulos doze, treze e quatorze de sua Primeira Epístola aos Coríntios. Enveredai depois pelos séculos, e defrontareis com a restauração apresentada, à custa de missionários do estofo de Joana D’arc, Wicliff, Huss, Lutero, Giordano Bruno, Kardec, etc.; e compreendereis a lição sublime, que bem ensina não vir o reino do céu com mostras exteriores, mas pelos canais humanos, em esforços pela conquista das virtudes internas, da iluminação pessoal.

Quando, portanto, Ambrósio abordou a um irmão que vinha atormentando a um encarnado, de maneira ultra-perversa, este lhe dissera, procurando no crime a razão da desforra:

– Eu sei que sou um desencarnado. Sei também que já fui doutrinado numa sessão de Espiritismo. Sei que sou responsável pelo que faço; mas quero vingar-me, quero metê-lo num hospício! Quero torná-lo um perdido, quem sabe um assassino, assim mesmo como ele fez comigo, vai para mais de duzentos e cinqüenta anos!

Eis a lógica da falta de educação, no sentido correto da expressão. Este espírito estava perdendo, já, a sua forma anatômica humana, ingressando, pelo revolvimento, nas gamas inferiores da animalidade, a começar pelos pés e pelas mãos, que se apresentavam com garras e peludos ao extremo, como se fossem os de um urso ou os de um leopardo. Ele estava fazendo que o outro purgasse, enquanto que ele mesmo chafurdava em abismos em si cavados!

Os abismos e os gloriosos planos existem! Tais abismos como não podemos descrever, tais gloriosos planos como nem ainda podemos conceber! Mas há uma ponte ou uma escada que alguma coisa facilite passar de um pólo a outro? Esse móvel seria espiritual, moral, mental, intelectual, material?

Existe, sim, o fator esse. Será da essência que bem quisermos. Em compreensão e amor, boa vontade e trabalho, renúncia, perdão, tolerância, etc., quem se der a sair da treva, do abismo de si mesmo, que é quem o projeta aos abismos exteriores, por certo que sairá. A escada é feita de degraus, chamando-se cada um deles reencarnação, programa redentor, eficiência, fé, renúncia, etc. Mas, para de tais virtudes usar, de que precisa o espírito? De educação! Eis, pois, que vos imploro, ó irmãos que tendes nas mãos a orientação das legiões humanas! Que faciliteis aprendizados sérios, que indiqueis santos caminhos às almas! Que lhes mostreis a seara interna, fora da qual toda e qualquer semeadura será perder tempo e esforços!

E lembrar-vos-ei, com acuidade paternal, o cuidado que deveis sustentar, dentro dos círculos consoladores, nos arraiais espiritistas, para com os inimigos do melhor conhecimento. Cuidado com aqueles, encarnados ou desencarnados, que vos convidam ao afastamento das obras instrutivas, dos livros que possam vos por a par dos mais racionais princípios. Estes tais, bem o sabemos, ou comportam em si nefandos lastros peçonhetos do passado, ou temem por algum falso mestrismo de que se julgam senhores. E não sejais conhecedores de uma doutrina e nem de meia dúzia de pontos doutrinários; buscai o conhecimento de muitas coisas e sede leitores de muitos livros. Sei o que fiz no mundo, enclausurando mentes e retardando conquistas sublimes. Cuidado com os que se julgam donos de credos e da própria VERDADE! Escancarai a mente para o complexo das manifestações divinais. A igreja de Deus é toda a Sua manifestação, é aquilo tudo a que chamais Criação, e do que não podeis falar com perfeito conhecimento de causa, porque sois mínimos em alcance mental, porque a visão do macrocosmo vos é por demais limitada. Procurai ter olhos de ver, mente de entender, sentimento elevado para poder sentir. Se de fato viveis com amor, com inteligência, quem poderá contra vós? Não existe o diabo, sem ser como viciosidade humana! Se vos libertardes no interior, quem poderá convosco no exterior? Hão de poder contra a carne; mas o agente moral, que sois vós, permanecerá incólume!

NA TRILHA BENDITA

Por certo que haveis de indagar sobre aquele cruel perseguidor. É simples de vos por à altura do acontecido.

Ele, o perseguidor, julgava-se a cavaleiro, na sua tremenda perturbação. Tinha os sentidos tão atrofiados, que não conseguia entender o que se passava, uma vez que gente de nossa esfera trabalhava para que o encarnado vencesse a sua dura prova, suportando-o por mais um pouco. O perseguidor não via e nem ouvia a quem quer, muito menos se dando do que se passava além de suas toscas vistas, onde seres superiorizados lhe neutralizavam a nefanda atuação, em virtude da fé que o encarnado mantinha ativa, produtiva, pensando cada vez do melhor modo, orando inteligentemente, tomando água fluidificada, assistindo sessões bem orientadas, pondo amor no trato diuturno para com a irmandade humana em geral.

E o perseguidor? Foi retirado e conduzido a lugar tremendamente expiatório, onde a ninguém poderia molestar, com a sustentação de seus infernais propósitos. Julgava-se forte? Sim e muito forte, como em geral o fazem os grandes criminosos, que tanto mais fracos são, porque crime nunca será fortaleza. Crime é vibração inferior. Treva, por densa que seja, cede ao império do menor raio de luz. Posto, pelos obreiros do bem, pelos soldados da Justiça Suprema, a penar num abismo onde todas as coisas tristes somadas seriam poucas, muita ocupação teria consigo mesma, para que pudesse vir a pensar em querer infestar o pensamento de alguém, com suas odiosidades detestáveis. E quando se teve cansado de si mesmo, pedindo o amparo superior, sinceramente, gente preposta foi-lhe ao encalço. Eis um pouco de mecanismo da vida, eis a naturalidade da vida que se processa por estas paragens, onde de favor nada se obtém, onde milagres e mistérios nunca houve.

Outro caso interessante.

Lembro-me de quando era sacerdote, que muitas vezes indagavam-me sobre aqueles espíritos a quem Jesus expelia, e daqueles de que trata Paulo, infestarem os ares. É uma realidade muito grande, muito mais eloqüente do que se possa imaginar ao primeiro lance mental. Como, então, existem paralelamente ao homem tantos espíritos, e tão grande parte da humanidade não é abordada? Dizia serem demônios, fugindo à etimologia, dando guarida à corrupção do termo, pois demônio é palavra grega e quer apenas dizer espírito. Dizia serem espíritos prepostos ao mal e aos infernos, e que só Deus poderia saber o porquê de tantos milhões de seres encarnados não virem de ser atacados.

Pois são apenas irmãos em origens, plano e destinos, sendo que podemos saber, porque o quer Deus, que ninguém será fustigado, sem que uma causa superior o determine. O homem não está na terra e Deus no céu, localmente falando; o homem está onde Deus está, que onipresentes são entre si, Deus e o homem. A atmosfera da terra é um burburinho de vida e movimentação de seres encarnados e desencarnados. Enquanto, mais ou menos, uma metade da humanidade dorme, a outra vive acordada. A metade que dorme vagueia, cada qual procurando meios e amizades próprias, ou sendo por eles procurada. Afora isso, há que contar ainda os desencarnados, que se dividem entre elementais, os espíritos que agem na natureza, os espíritos endurecidos e chumbados ao solo, e os diferentes trabalhadores do bem, sejam os familiares ou prepostos a isso. E ninguém será abordado, sem que motivo justificável haja e determine.

Como proceder para evitar as aproximações maléficas? É simples e complexo o problema, ao mesmo tempo. Há quem o seja por via de motivos bem velhos, por causa de atrações que devem ser eliminadas. E há casos diferentes. Existem casos profundamente importantes, em que famílias de espíritos entre si adotam sistemas de interinfluenciação. Cuidam uns dos outros, influindo educativamente, sem que os encarnados o saibam, enquanto estão na terra. Não é permitido pela Suprema Justiça, que se suprima a relativa liberdade e responsabilidade; mas, essa técnica falha, também, como falham outras quaisquer, uma vez que o encarnado tenda para o que não deva, o que muito se dá.

De qualquer forma, pois, o ambiente dos encarnados é mais dos desencarnados que os cercam. E não só cumpre que se poupe o homem de certas opressões, como é necessário faça o que possa, pelo progresso de todos. Isso é muito possível, pelo pensar, pelo falar, pelo agir. Os pensamentos humanos povoam os espaços de formas-pensadas, na maior parte grosseiras; é imperioso que isso se modifique, de vez que essas variações perniciosas, constituídas que são de material energético, servem de alimento às falanges menos recomendáveis. Outrotanto se dá com as emanações superiores, sendo que pelas qualidades, estimulam ao bem, constituindo barreira contra propósitos malsãos. É pela aura pessoal que o encarnado atrai ou repele a agentes tais e tais do mundo invisível. Cumpre a cada um que tenha em boa guarda sua própria residência. Que se revista de luz, de radiações poderosas.

Um trabalho que fomos executar, junto de irmão encarnado recém-influenciado por maldoso agente de nosso lado, faz-nos compreender o que pode o bom pensamento.

JASMIM EM CENA

Conheceis Jasmim, a médium de cor, pela narrativa intitulada ÀS MARGENS DO MAR MORTO. Também já a citei no curso deste relato que vos trago ao conhecimento. É a preta velha, espírito cândido, serva dócil do Senhor, de quem nos temos valido e feito valer, em circunstâncias deveras prementes. Porque, se verdade é que trabalhamos, que podemos trabalhar, que temos ordens a cumprir, não menos real é que, sem médiuns, sem agentes intermediários, que faríamos? Muita gente dita bem intencionada, a respeito do Espiritismo moral, filosófico ou científico, não está ainda aparelhada para julgar do Espiritismo mecânico, da engrenagem ou da ampliação das engrenagens que ele representa e é. O fator mediunidade é um dos máximos fatores com que temos de lidar. É raro um médium bem médium!...

Jasmim foi, pois, no mundo, um médium notável. Pela simplicidade, pela nenhuma significação que a si atribuía, pela renúncia de seu personalismo, pela simplicidade que observava em todos os sentidos da vida. Não estranha, pois, que seja uma estrela cintilante em nossa constelação de astros da espiritualidade. É apenas lei, ou por força de lei, que é assim. Também, não quero dizer se tenha ela emplumado em uma encarnação, a ponto de alçar vôo para tão alto. Honrou a muitas encarnações para conseguir o que tem. Viveu e reviveu no seio de quase todas as raças, religiões e povos. Acompanhou os passos seculares de muitos outonos da humanidade. E quando ganhou a glória mundana de santificar-se, tendo de escolher na plataforma das condições humanas, um lugar de preta humilde, para, com isso, curvando a cerviz pretensiosa e egoísta, alcançar re-equilíbrio e paz de espírito.

Dessa serva compenetrada de suas necessidades imperiosas de reestruturação moral, muito nos servimos. Foi a ela que ocorreu a um moço de vosso plano encaminhar-se, quando sentiu-se atacado de perturbações de ordem psíquica. E foi por intermédio de tão devotada amiga da VERDADE, que um de nós lhe falara, mais ou menos nos seguintes termos:

– És, irmão, um espírito reencarnado, como todos os daí o são. Acresce, porém, que em virtude das leis de causa e efeito, ou do Carma, cada um carrea o montante de responsabilidade que o define perante si mesmo, nas ordens vibratórias, que são, por sua vez, o tom para efeito de relação interplanos. Logo, por tais leis, ninguém deve abusar do direito de pensar e agir como bem queira, sem ponderar no mérito ou demérito moral dos pensamentos ou dos atos. No seu caso, soubemos de melhores obreiros, há que atender, mais para esse sentido da vida e das responsabilidades. Nasceu sob bons auspícios, para servir no campo do avançamento espiritual da humanidade, em virtude de vantagens interiormente conquistadas. Se agora, porém, quiser dar-se a pensar de modo contrário aos verdadeiros fins da encarnação, muito terá que pensar. Leis, porque virtudes o são, ao invés de o colocarem em contato com os bons servidores da Causa da Verdade, colocá-lo-ão justapostamente ao lado daqueles que pensam e agem de outro modo. Em outras palavras mais simples – terá relações obrigatórias com agentes do plano astral; mas se contrariar o propósito da encarnação, tanto pior para si, porque será forçado a ter tratos com os amigos das trevas. Antes de encarnar pediu por sérios deveres e sagrados compromissos. Não tem o direito de trair a Causa da Verdade. Eis do que deve compenetrar-se.

O moço se foi, inteligente que era, a parafusar mil coisas. Levava, na consciência, perfeito conhecimento do que lhe ia pela esfera de responsabilidades. E tramava por as coisas em ordem, o quanto antes e do melhor modo. E foi notável a reação operada, de ordem psíquica, com influência tal sobre sua aura pessoal, que o vicioso companheiro invisível, imediatamente principiou a sentir-se mal. É interessante o que se passa com as leis vibratórias, ou por causa delas. Uns aos outros, atraem ou afugentam, espontaneamente. As radiações valem por barreiras de tremendo teor magnético! O campo mental, a serviço dos supremos ideais, transforma-se em força que determina os fatores distância e eqüidistância entre os seres. O tom mental determina o aparecimento do radiante, e este seleciona espontaneamente.

Quando o moço, portanto, fixou seu poder mental nas coisas da VERDADE, invocando os guias da casa espiritista a que lhe ocorrera procurar, tudo se modificou em sua aura. E por ter de si mesmo dado o justo, demos-lhe um guarda, um defensor, enquanto não nos fosse dado orientar ao seu infeliz perseguidor. Levando ele, para ler, a mais racional prece que conhecemos, que é aquela já inserta em outras mensagens, isso fez. Seu pensamento, sua mente, tornava ao tom ótimo, ao que havia em ele de mais expressivo, pelo que de conquistas havia realizado nas vidas sucessivas. Recuperava-se vibratoriamente.

Dias depois, terminado a leitura da prece, adormeceu. E foi então que o transladamos para lugar superior, o quanto podíamos nós e que pudesse ele suportar, para em vendo e ouvindo grandiosas coisas, volver à vida de missionário encarnado, com o propósito de vencer. Porque o plano orientador a ninguém abandona, também não deixa de ser exato que o orientado cultive o melhor sentido de suas obrigações correspondentes.

Que lhe fizemos? Fizemo-lo ver, desfilando pelo cristal retrospectivo, a muitos trechos de textos do Evangelho, acompanhados das imagens projetadas em colorido notavelmente deslumbrante. Foi o Evangelho encenado o que lhe mostramos. E por último, quando a figura do Cristo apareceu, nos extremos de pobreza e simplicidade dos últimos dias de Sua vida carnal, foi para dizer-lhe:

“Prometi, durante meus dias de peregrinação pela carne, um Consolador aos irmãos em geral. Pairando acima dos angustismos do homem matéria, sua função é unir, por lhe falar a linguagem da mais sublime realidade, que é viver a vida plena, sem divisões, sem egoísmos, sem barreiras levantadas em todos os tempos, em todos os momentos, pela incompreensão. É necessário saber bem sobre as origens, para que em vivendo o plano justo em realizações, possa o espírito deixar a carne, a farda que caracteriza uma obrigação, em condições superiores de ordem científica e moral. Não preguei jamais um céu que pudesse ser conquistado por meio de ziguezagues e malabarismos simbólicos; muito menos ainda, um céu à vista, um céu exterior, um céu sem amor, sem sacrifício dos ímpetos inferiores. O homem não precisa lutar como cego, como aleijão, uma vez querendo dar-se ao conhecimento do Parácleto, do Advogado do Informante prometido e enviado. Luz é o que vive a espargir pelas mentes, doçura é o que vive a esprair pelos continentes da consciência humana, o jorro da História Religiosa do Planeta, no batismo que trouxe então ao mundo, e que se radicou a ele no dia do Pentecostes.

Falaram, meus irmãos e amigos, aos homens, a linguagem da vida contínua e triunfante. Maus homens, infelizes inimigos de si mesmos, não deixaram que uma só palavra ficasse registrada, do que então foi apregoado pelos espíritos emissários. Mas ninguém tirará um só ceitil do relatado, porque em Deus tudo é plenitude e verdade; eis que se repetem, por todos os rincões da terra, os dizeres daquele dia memorável, em que culminei minha mensagem aos irmãos em geral. Não separei em vida carnal, nem o fiz depois, triunfante na realidade. Não separo hoje e jamais separarei, porque minha função é unir; mas unir em Sabedoria e Amor. Todavia, por causa dos que se desviam e fazem por desviar, cumpre sejam enviados à carne espíritos trabalhadores, espíritos que sustentem alto a tocha iluminadora de almas. Sabeis bem, que cada qual admite a VERDADE assim como lhe seja possível, por evolução. E que seria do mundo sem os pregoeiros do Amor, uma vez que sobrem nele os servidores das trevas? Não anelai um céu sem lutas, porque isso não é de meu Evangelho. Acendei para vosoutros, em primeiro lugar, a lâmpada eterna e gloriosa, para depois poderdes falar com autoridade aos irmãos de jornada. Não existe realidade mais bela, nem VERDADE mais digna de respeito, do que aquelas que o ser em si mesmo comporta. É da natureza do homem que se ilumine; mas para isso preciso é que trabalhe, que se esforce.

Não vivi uma vida de mistérios, de milagres e nem de favores, como julgam alguns amigos e irmãos, bem intencionados e cultores do bem. Dei provas da verdade simples, que é o poder das virtudes intrínsecas, despertas e postas em função de Amor. Disse-vos e repito, que chegareis a fazer mais do que fiz. Porque usei de poderes latentes tornados patentes. E sendo a lei comum a de evolução, quem vos negaria o justo? Fazei, pois, bom uso de vós mesmos, para que o despertar interno seja lento e seguro; e repetireis os meus feitos, assim como vos disse. Uma é a lei, para todos. Em Nosso Pai não existem divisões, embora as cultivem alguns irmãos menos conscientes. Todavia, é tempo de renovo. Que ninguém se descure desta verdade – é tempo de renovo. Coisas acontecerão, sem dúvida, que virão como vêm a luz do sol ou o clarão das estrelas, contra o que nada pode a vontade humana. Dê-se, pois, o homem, ao entendimento do tempo cíclico-histórico que o Planeta atravessa. Procurando desconhecer, para poder negar, tudo complicará. Negar não é resolver. É preciso conhecer e propor-se ao auxílio do lanço renovador. Eis do que estão encarregados, os emissários da nova era. De mim, hoje como sempre, dada a minha função de orientar e servir, não temei abandono. Não vos abandoneis, porém.”

A figura do Mestre, na face de cristal refletida, embora a pobreza da vestimenta, e o fato de estar descalça, revelava imenso potencial em Força-Moral. E a quantos servidores fora dado uma tal visão estimulativa, nenhum perdera mais o rumo, a diretriz mental por observar na vida. Este irmão, pois, volveu ao corpo em estado superior de espiritualização. Acordado, soluçava de contentamento, transportando em si mesmo às penhas de um estado de alma glorioso.

Ao dia seguinte, bem cedo, foi contar o ocorrido a Jasmim, a médium de cor. E fizemo-nos ver a ela, falando-lhe no sentido de nada dizer. O moço precisava dar interpretação própria ao caso. E lá se foi, estrada a fora, consciente de que o Senhor a ninguém abandona, servindo sempre a todos, cada um a seu modo, assim como mais convenha aos deveres por executar.

E o espírito opressor?

UMA DOUTRINAÇÃO MAIS

O espírito que tangia todas as possibilidades, que forçava todas as portas que à sua sanha de malfeitor pudesse parecer bom canal ou móvel de prejuízo ao moço, sentido-se baldo em tentativas tantas, abandonou-o. Estava, porém, fixado, que seria por nós orientado. Invisivelmente, portanto, gente nossa o seguia. E quando sua vez chegara, fora abordado por um trabalhador, que mais ou menos assim lhe falara:

– Que faz por aqui, amigo, nesta atmosfera de álcool e fumo, de vícios que valem por serpentes a peçonhar almas?

– Vivo! Vivo! – disse ele, desconfiado, olhando ora para o nosso trabalhador, ora para o ambiente em geral, ambiente de taberna, de jogo, de fumo, etc.

– Há viver e viver, amigo. E nós, os servidores do bem, sabemos que está em grandes dificuldades de toda ordem. Temo-lo seguido e estudado a deficitária situação em que se encontra. Deve tudo a si mesmo, posto que, para com Deus ninguém arruma dívidas...

E o vicioso ser, intempestivamente, berrou como um animal danado:

– Já sei!... É da mesma cantilena!... Vá-se embora, antes de que o faça calar à força!... Peçonhento é você, seu mentiroso!...

– Por fim, amigo, sempre vencerá a VERDADE. Se tem alguma razão para apresentar uma atenuante por fazer valer, saiba que gostamos de a tudo ouvir e dar o devido juízo. Não se faça, porém, abrutalhado, inimigo ou pretenso cruel, porque isso só lhe traria prejuízo. Agimos por força de leis, não por vontade própria. E leis devem ser respeitadas.

– Quem criou essas leis e para quem? – inquiriu, escarnecendo.

– Para mim, pelo menos, Deus não cria; tudo é, em Deus, natural e de sempre. O que precisamos é aprender e agir coordenadamente, para que, sendo também partes da manifestação do SUPREMO SER, e tendo por natureza direito à individualidade e à organização da personalidade, não venhamos, por essas glórias pessoais, causar-nos infelicidades tremendas – explicou-lhe o nosso companheiro.

– Bebo para esquecer a dor! E quanto adorei a esse tal Deus! Quantas vezes dormi de Bíblia sobre o peito cansado!... – resmungou o homem, raivoso.

–Nem sequer bebe do seu... Age como parasita... Como vampiro...

E o sinistro homem, gargalhando, passou a basofiar:

– Vivo de quem vive!... Encosto-me e sugo... Quero beber, fumar, gozar a vida!... O mundo, por aqui, é melhor do que por lá... Aqui sobra tudo! Tudo!... A coisa vai bem... Ora se vai bem!... Veja quanta gente que creu em Deus anda a lambiscar à custa do encarnado... Olhe só, repare, que mais de cento e cinqüenta por cento do que está vendo é vampiro! Sugamos no duplo de tudo, diretamente, e sugamos também indiretamente, por aproximação, por interpenetração de fluidos.

– Quem lhe ensinou isso tudo? – indagou-lhe nosso companheiro, admirado.

– Entro em todas as igrejas, conheço todos os credos... E de quando em quando, persigo a uns e a outros, para experimentar umas tantas coisas...

– Nunca sentiu que um tempo de liberdade esgota-se, também, vindo a seguir o ter que responder pelo mau uso dele feito?

– Então, Deus só existe para nos criminar?... Porque não se lembrou de mim, de mim que tanto Dele falei?...

– Deus não existe, porque Deus é. Sim, Deus é. Não adianta divagar no sim ou no não; Deus é. Nós somos, também, queiramos ou não. O que houve em sua educação espiritual, em sua formação intelectual sobre si e sobre Deus, é que mentiras de homens valeram mais do que verdades reais. Eu também aprendi coisas mentirosas, teologia falsa, e um dia, ao abrir os olhos para este lado da vida, assombrei-me com a tremenda realidade com que deparei. Mas, amigo, não me revoltei contra Deus pela culpa dos donos de credos do mundo. Fiz o possível por encontrar o caminho mais curto para o reencontro com a VERDADE. E achei em mim mesmo o caminho, porque o BEM é grande parte dele. SABEDORIA fui conquistando, aos poucos, para o gasto. E me sinto pleno em prazeres espirituais, porque recebo, a meu ver, para além do merecido. Deus não vem de fora... Deus vem do íntimo de cada ser, em forma de glórias, de belezas sem conta, porque Ele mesmo é o nosso GLORIOSO ALICERCE. Precisamos despertar-nos, meu amigo, bem o disse o Divino Mestre, quando afirmou que o reino do céu não virá com mostras exteriores...

– Mas no meu credo se comprava a glória!... Comprei muitos direitos e vi-me expoliado de tudo e em tudo!... E quem me expoliou, quem me roubou, sem ser Deus?... Ao menos mandasse alguém me avisar... Nem na vida e nem na morte?

– E que estamos fazendo ao lhe concitar para o bem?... Todo caso, amigo, deve convir em que foi muito amante dos vícios do mundo, sendo certo que odiou em grande escala, por questões de herança. E ódio é treva! Ódio será sempre treva!

– Meu pai foi o culpado!... – procurou desculpar-se, baixando a cabeça.

– Cada qual será provado por si mesmo. Cumpre saber isso. Vencer tendo todas as regalias não é vencer. Temos que tornar-nos autoridade em tudo; e isso demanda escola, experiência, luta, trabalhos árduos. Não soube vencer, isso sim. E deve compenetrar-se de que chegou a hora de mudar... Ou de ter que mudar para pior...

– Isso é comigo?... – disse ele, assustado, levantando-se.

– Somente consigo, meu irmão. Venho de mais alto para esclarecê-lo. Chega de rastejar pelo chão do mundo mais denso... Outros chãos o aguardam, onde uma mãe, uma esposa, alguns outros parentes o aguardam, ansiosos... Pense nisso...

O homem sentou-se, de novo, tendo reclinado a cabeça sobre os joelhos. Pensou muito tempo, sem que alguém o molestasse com palavra alguma. Quando volveu o rosto, choroso e transfigurado, perguntou:

– Minha mão me quer, ainda?...

– Sua mãe, embora paire em zona feliz, sofre por sua sorte. Lembra-se de um filho que não foi bom irmão, que em seguida revoltou-se contra Deus e contra tudo; mas, antes de mais nada, aprendeu que somos todos irmãos, que temos de trilhar a senda do aperfeiçoamento lento, muito lento, caindo e levantando, e que só podemos ser rebeldes enquanto durar ou perdurar a ignorância dos porquês, o desconhecimento de que em nós temos, em potência inata, trevas e luzes sem conta por manifestar. E ora por si, creia, neste momento, bem junto de si, oculta por entre as primícias de sua superioridade vibratória, e também por cumprimento de superior determinação.

O homem, soluçando, soltou um gemido confrangedor. Sua alma vencia contra um amontoado de mazelas características organizadas. Estava, pois, em si mesmo vencendo. Transpunha, no cipoal de sua formação perniciosa, o mais intenso intrincado, em busca da clareira próxima, premissa das luzes da campina, pródromo da estrada limpa, por onde trilhar à cata do reerguimento necessário. E o mentor lhe dedicou algumas palavras a mais:

– Não creia exista barreira intransponível entre uns e outros ou o céu e a terra. Deixe de crer nessas tolices do teologuismo igrejista do mundo; procure saber da VERDADE o mecanismo natural, de quem somos, todos e tudo, parte e relação harmônica. Os separatismos foram inventados por homens, para poderem levantar credos em nome de Deus, da VERDADE, e, assim viverem como madraços exploradores da fé cega, do supersticiosismo das gentes. Saiba, por investigar, para que a crença se transforme em saber puro, e para que o saber puro o torne um obreiro consciente, um cooperador de Deus, da VERDADE. Não procure fora de si o melhor, de vez que a primícia está no ego fundamental, na ESSÊNCIA GENÉRICA.

– Quando poderei ver minha mãe?... – balbuciou o homem, levantando a cabeça vagarosamente, como se tivesse sobre ela toneladas.

– Quando se dispuser a invocar a Jesus Cristo, arrependido em si, propondo-se aos serviços de recuperação em toda linha. Não digo que peça perdão, porque de fato o não há; mas que se proponha a auto-recuperação, porque oportunidade de ressarcimento, de redenção, isso é o que há e se deve pedir. Deus a ninguém jamais quis de joelhos, implorando perdão, babujando a quem quer, ou pronunciando lambetismos nauseantes, formais e criminosos. Deus quer obras dignas, e obras dignas não pode o homem exercitar, sem ser, em si e à custa de pessoal vontade. O que lhe digo contraria a muitos teologismos falso do mundo, mas é o programa de redenção por excelência. Eu não tenho igreja, não venho em nome de quem a tenha, porque a Igreja de Jesus Cristo é a ORDEM DIVINA, sendo bem geral e não organização estatucional de homens que querem passar pelo que de fato o não são. Lembre-se disto: que Jesus Cristo recomendou AMOR e CIÊNCIA, não formalismos tolos.

Com um breve estacato do mentor, houve tempo para o homem dizer:

– Reconheço que meu estado tem piorado ultimamente... Devo estar a me prejudicar de modo cruel... E se de fato em Jesus Cristo não existe o prazer de afrontar, de sujeitar, mas sim de compromisso sério em trabalhos de amor, então me confesso imensamente pecador... Maltratei mãe e irmãos, surrupiando-lhes da herança paterna o que pude, mancomunado com um sacerdote, que me garantiu ganho de causa perante Deus, uma vez oferecendo à igreja, grande parte dos bens... Creio que esse padre também esteja passando por mau bocado; foi um mau padre...

Fez um longo silêncio, para em seguida perguntar:

– Para onde devo ir?...

– Para dentro de si mesmo... Pense em Jesus Cristo. Quem pensa num ser, força no sentido de penetração de sua gama vibratória. Pense no Divino Mestre, que por sua vez pertence à mais intensa gama vibratória na terra conhecida, para que o seu revestimento grosseiro, para que a sua aura doentia se vá tornando penetrável, possível de burilamento. Concentre seu pensamento na máxima vibração planetária, personalizada na figura diretora do Mestre.

O homem, cerrando os olhos, ensimesmou-se profundamente. E ao lado de muita gente, alheia a tudo aquilo, que bebia e dançava, fumava e se dava à manifestação dos mais animais e sórdidos instintos, um irmão mais foi ganho para as coisas do BEM, depois de sofrer tremendas angústias de ordem moral. Ele não era, antes de reencarnar, um mau espírito; tinha suas conquistas nobres no farnel da evolução realizada. No mundo é que, dada a má organização mental religiosa e tristes conselhos recebidos, assim chafurdara nos abismos internos, nas crateras do ódio, nos lamaçais do egoísmo, nas labaredas da revolta.

Onde volveu a si o homem? Numa zona para onde o transportamos durante a sua sentida prece de arrependimento. A quem ficou entregue? Ficou entregue àquele que vinha por ele rogando – sua mãe. Ela é que lhe iria ensinar um novo catecismo, onde não se aprende a esterilizar as forças progressivas naturais, por meio de dogmas ou de formalismos pagãos e extorsivos.

Quando, bem mais tarde, o conduzimos à casa pobre de Jasmim, a assistir como espírito observador dos aprendizados evangélicos, ali estava o moço contra quem havia ele tangido os tendões de sua antanha odiosidade. O jovem já havia desenvolvido em faculdade interessante. O nosso homem por ele falou, dizendo coisas de sua própria história. Ao deixar o medium, considerou:

– Que fará no mundo o Espiritismo bem cultivado?

– Aquilo que Jesus Cristo testemunhou. – respondeu alguém – Fará reconheçam os homens, ou a grande maioria, que existem credos ou religiões no mundo, que estão com mais de cinqüenta mil anos de atraso. Sim, podemos assegurar, que dizemos aquilo que significa um avançamento espiritualista de mais de cinqüenta mil anos, relativamente ao que foi ensinado através as primeiras revelações. E quem quiser saber, para tanto nenhum outro esforço precisa de empregar, sem ser no sentido de destruir taras repelentes, recalques supersticiosos, prisões a tramas retrógrados, a tudo isso a que deu guarida no curso de miríades de encarnações. Em verdade, o homem mais vive dos vícios a que se prendeu, do que mesmo da VERDADE de que é parte e relação. E se não der de si esforço impulsivo renovador, onde irá parar, em que abismos se lançará, por não coordenar com a lei de evolução necessária? É fácil responder – irá forjar, para si, para a coletividade, guerras e situações medonhas; porque da má situação do eu fundamental partirá sempre, sem dúvida, toda sorte de conseqüentes situações dolorosas.

Os homens de qualquer tempo, exatamente, terão político-social-economicamente, aquilo que corresponde ao seu montante em espiritualidade. Onde haja falha de espiritualidade, ali haverá de misérias o correspondente. Quem não atina com a ordem geral de coisas, que é a ORDEM DIVINA, por certo que particulariza horrivelmente, vindo a errar e fazendo que seu erro incida sobre a coletividade. Onde estiver um homem a vibrar de modo contrário à ORDEM DIVINA, ali estará um foco de possíveis catástrofes de alçada geral. Porque todo o fenômeno tendente à evolução, partirá sempre de um centro que o engendre, de um ponto propulsor original. O homem, pois, deve raciocinar muito sobre o emprego de si mesmo, para todos os efeitos. Entre Deus, o próprio homem e a religião, pairará sempre o pouco de livre arbítrio do próprio homem. E quando essa regalia humana se haja viciado, vindo a sentir-se bem só no culto do tresmalho, tudo o mais que o homem venha a fazer, ou de si dar emprego, redundará em prejuízo, em desfecho doloroso.

HÁ QUE SER DECENTE

Que fábricas de seres felizes seriam as religiões, caso os formalismos, a começar dos mentais e terminar nos materiais, representassem valores científico-morais em face da ORDEM DIVINA, ou daquilo que sempre se chamou a Lei de Deus, que é a FORÇA EQUILIBRADORA, aquela que faz ter segundo como se lhe aproxime o ser, em tom de sabedoria e moralidade. O mal está em que os credos do mundo, erguidos à luz dos formalismos humanos, enrodilham de modo tal o crente, com lantejoulas que ao espírito, em verdade, não beneficia, porque apenas capazes de encher a vista e convencer a parvos, ou, convencer a parvos e encher os bolsos de seus donos.

Todos os minutos a terra oferece a triste prova à realidade. Uma cadeia ininterrupta, uma caravana marcha, não digo solene e sim inexoravelmente, rumo a desfecho que vale pela prova real de todas as operações. Dir-se-á que as religiões ensinam bem, nunca enveredam ao mal, pois não aconselham a tal. Eu digo o inverso e com um pouco provo a mais triste assertiva contra os credos do mundo, levantando contra eles libelo invencível. Os credos que apenas credos são, os a quem abominam aqueles benéficos expandires que só a ciência e a filosofia podem conferir e forçar, todos são dogmáticos, estreitos, aniquiladores do poder pensante e progressivo das almas. Atingem o cúmulo do disparatismo, pois sendo em si mesmos petrificados, para gáudio ou folgança de seus donos, pretendem que o próprio Deus, o próprio soberano mecanismo das leis, sejam como teimam eles e não como de fato o são. E quem envereda a mente, de fato contra a ordem normal das coisas, decerto que não age decentemente, embora faça fulgurar ao redor da farsa repelente, o nome luzido de Deus! A mentira é tanto mais vil o quanto mais procure ornar-se com os florões a que só a VERDADE faz jus.

No dia em que nos mandaram a recolher vulto de escol, espírito que passara pelo mundo engalanado com as fronhas de tantos somados bens terrenos, sociais e culturais, tivemos uma grande decepção. Ilustre em face do mundo, do mundo que não vê para além das fronteiras materiais e convencionais, pecava o homem em face de si mesmo, como fragilíssimo em virtudes de fato, em conhecimentos e em realizações que pudessem servir ao espírito imortal. Que enterramento! Que de fastoso, pomposo retumbar de louvores mundanos, em coros quase pagos, em extremos de religiosidade convencional, em exponença de gastos de toda ordem! Tudo o de grande, o de soberbo, o de custoso, inclusive muitos respeitos ao morto de qualidade, à especialidade do defunto! O mundo via muitas coisas bonitas, grandes e impressionáveis coisas, não há dúvida; mas não via o principal, não via o ser que, vencia a ordem cíclica, o tempo de duração de estágio na sala vasta de aprendizados que é a encarnação, via-se cuspido, projetado a uma situação melindrosa, sem contar no seu farnel de reservas, com que afrontar a voragem quase horripilante das leis de causa e efeito.

– Que diriam os que aí envolvem o morto com suas honrarias, caso vissem de chofre, e de pronto pudessem compreender a extensão do logro em que se acham?

– Eles – respondeu Égas a Ambrósio – estão também na expectativa de logro, por trilharem a mesma senda intelectual enganosa, por fazerem uso do religiosismo convencional do mundo à guisa de Religião Pura, como chamaríamos ao contínuo viver decente, assim como possível seja ao talante de cada um, por hierarquia e segundo as leis do plano onde se encontram. No logro de quem está é o nosso homem, a quem devemos socorro “série um”, que bem sabeis o que representa. Vamos, pois, conduzi-lo ao local de provas intelecto-morais, que isso lhe cabe por turno, de conformidade com a Suprema Justiça, pelo que aparentou e não viveu de fato, entre seus irmãos de jornada. Demais, assim como disse Jesus Cristo, que falava do que sabia que era certo e não davam crédito, assim continuará ainda, por muitos séculos, na face sombria da Terra. Há quem preze mais ao rótulo do que à essência; e nós somos testemunhas conscientes de que em nossos planos de vida, todos os matizes estatais podem ser encontrados, para que cada um tenha segundo como procurou com tanto afinco na vida. Que mais deveria fazer Deus, o PRIMEIRO ESTADO, que em si tudo encerra ao infinito? Dá-nos natureza, em ser e qualidades divinais ao infinito por despertar; dá-nos ambiente próprio; dá-nos irmãos respeitosos até mesmo em face dos erros; confere-nos o direito de ida e volta; dá-nos instrutores sábios e benevolentes, de acordo com as eras evolutivas, de conformidade com as nossas possibilidades de assimilação. E se com tudo isso ao dispor, como o teve e de sobra o nosso homem do momento, não quisermos enfrentar seriamente o problema da responsabilidade pessoal em face da morte, que mais restaria acrescentar, sem ser o direito de quinhão próprio? Esse homem enviou para cá material que só deu para merecer isso; verdadeiramente, em sentido figurado, cada vivo aí da carne está para cá mandando material para a construção da casa em que virá morar, quando para aqui a morte o recambiar. E quem mandar pouco ou nada, como se haverá? Pois em condições piores encontrar-se-á, sem dúvida, aquele que melhor tenha explorado os bens do mundo, sem pensar em lhes honrar os méritos, como medida de oportunidade. O mundo pode honrar a falácia, o exteriorismo, o vanglorismo em geral; mas quem enganaria aquela JUSTIÇA que julga e comina de dentro para fora, pondo a funcionar a essa à qual servimos, que é a Justiça Organizada em base intelectual?

– Que pena em nada poder fazer!... – gemeu um alguém que se achava junto de nós, ser de condição sofrível e que parecia pertencer à família do defunto.

– Assim somos nós. – prosseguiu Égas – Queremos melhorar os outros, esquecidos de que o todo é apenas a união das partes, e que sem a cooperação de cada célula, de fato no bem exemplificado, nada valem cantilenas e nem gemidos, suspiros e tiradas de efeito, atitudes e gastos com simulações religiosistas. A boa religião seria a decência contínua no fervilhar da vida de relações. Depois de o homem viver isso, que deixasse o tudo mais por conta de Deus.

– Isso, moralmente... – observou Ambrósio.

– Quem moralmente se portasse bem, para que fim sustentaria prevenções contra postulados que significam avançamento? Quem duvida de seus méritos de fato é que se faz inimigo sistemático do aprendizado necessário. O homem está tão viciado no afã auto-enganoso, na necessidade de truncar a evasão espontânea das aspirações nobres, que se aferra a tudo quanto representa formalismo comodístico. Nega uma verdade, afirma uma mentira, automaticamente, mecanicamente, por vício de atitude, por duplicidade criminosa, por comodismo social. O plano dirigente envia-lhe missionários de toda ordem, em arte, em ciência, em filosofia, em todos os ramos de manifestação de leis, de fenômenos, fazendo-lhe ver a necessidade de avanços rumo à perfeição preposta e necessária; mas o homem, arrastando sua malfadada falsa educação espiritual, corrompido em sua organização mental, encravado na estreiteza das convenções, dos rótulos convencionais, tanto serve a tais nefandos dogmas, que com eles chafurda em agonias. O nosso homem de hoje foi um figurão, nas bancas da sociedade. Viveu cercado de honras mundanas, inclusive a babuja do credo a que se deu por feliz em pertencer. Só não foi decente para consigo, para com o próximo e para com Deus. Lamberam-no hipócritas, temeram-no os humildes, adularam-no os iguais, prometeram-lhe salvações e absolvições os mercadores dos templos, os quitandeiros da falsa fé, os inimigos da VERDADE e do progresso... E eis aí a sobra de tantas vantagens somadas...

E enquanto o esquife deslizava, de mão em mão, para que gente séria e gente fingida de séria pudesse partilhar da honra de transportar um pouco ao defunto de tão montante luxo social, eis que Égas dera ordem no sentido de que trabalhadores prepostos conduzissem o homem pseudo civilizado ao lugar indicado na ordem de serviço. Há quem julgue que só na crosta possa ter alguém oportunidade de ser um pedinte de pão, de roupas, de calçado, de justiça, de amor... Porém, em verdade, não só a face da Terra se expande em duplicatas, em campos de vida organizada, dos piores aos indizivelmente melhores, para efeito de situações de toda ordem. Longa romagem teria que tecer aquele homem, que no mundo fora um ornamento da sociedade contemporânea, pelos feios países de certa zona astral, antes de ser recolhido para receber instruções e prosseguir caminhada. O Luzeiro do Mundo não lembrou ao homem a necessidade de ser, antes de tudo, simples e humilde? Amemo-nos uns aos outros, que o resto ficará por conta de sacratíssimo tribunal. Quem ama de fato, quem faz tudo por tornar-se útil, por certo que não se deixa apanhar pela chama vergonhosa das prevenções contra os lanços progressivos, em doutrinação espiritual. O verdadeiro homem de bem não vive enclausurado em círculo vicioso, porque o não constrói. É amplo como amplas são as perspectivas do programa evolucionista. Entre os dois direitos que envolvem, o fundamental e o convencional, o homem de bem dará mais atenção ao fundamental. Nenhum homem que venha de honrar, praticamente, aos direitos fundamentais do seu semelhante, poderá jamais deixar de sentir-se em gozo de consciência, por isso ter feito. E se a sociedade moderna é fábrica de duendes das trevas, isso é por via de se afastar ela, pelas leis vigorantes, dos sagrados postulados da necessidade e dos direitos fundamentais. O choque entre os dois direitos é tremendo, dada a época de vida planetária, dados os elementos informativos à humanidade enviados, pelo Senhor, através de instrutores cujos méritos são por demais apreciáveis, quer por aqueles informes que se vasam diariamente do Consolador prometido. Principalmente por este, pois enquanto aqueles instrutores informam pela ordem de seqüência, em campo material, dizendo respeito ao homem físico, por lhe aumentar o bem estar através o aproveitamento das reservas naturais do Planeta, estes outros informes, os do Consolador, vão atingir em cheio, em sua vasante, ao homem que não viverá sempre atado ao plano dimensório das leis mais grosseiras, menos dinamizadas. Fala, pois, o Consolador, ao homem mais interessante.

E quando fala? Como fala? Para que fala? Por que fala?

Já disseram outros, sobre tais porquês cíclico-históricos; já mencionaram os dias de REVELAÇÕES SUCESSIVAS, isto é, as épocas informativas, de conformidade com o desenvolvimento mental do homem e das civilizações. Se é certo que passamos aos irmãos da crosta informe sobre o que poderão encontrar um palmo depois da morte, certo é que doutrinas existem, tão arcaicas, tão vetustas, cuja deterioração só não compreende o homem, seu adepto, por injunção do fanatismo que lhe acanha o alcance da razão. Tão obsoletas revelam-se certas regras religiosistas que ainda sobrevivem, que forçoso é duvidar do senso de equilíbrio de quem as observa. Psicologicamente, é notável presenciar como certas seitas atingem tanto aos recônditos do subconsciente, a ponto de eliminaram os melhores lanços da razão consciente, do raciocínio puro. O corpo vive ou se curva às necessidades do mecanismo político-econômico-social contemporâneo, enquanto o espírito, por falsa mística, ou por ceder à sua embaladura doentia, vive milhares de anos atrasado. Precisa de segredos, de mistérios, de milagres, de termos, de idiomas, de mil farândulas idólatras, de toda sorte de simulacros! Precisa de hierarquia, de pretensos graus, de pomposos títulos que nobilitam em face dos boquiabertos, dos cérebros ensandecidos, mas que à luz do Supremo Juízo, derretem-se como o gelo ante os dardejos do sol. Como são ridículas as atitudes da grande maioria humana! Como é triste notar que não reconhece na simplicidade, na bondade espontânea, o móvel cem por cento da realeza espiritual! Falho que é o homem em espontaneidade, tudo o mais que fizer, à base de atitude, pode muito bem identificá-lo como atrasado e hipócrita, tacanho e fingido.

Há no fundamento de todo homem, uma lei que convida ao aprendizado de si mesmo. O que é o homem em face da ORIGEM e da FINALIDADE, do cultivo dessa lei é que aprenderá. Ela o compele à universalidade, em compreensão, em moralização, em aplicação de si mesmo. Cair em misoneísmo degradante, atolar no lamaçal do angustismo sectário, explorar a fé ou pretensa fé de quem quer, tudo isso é lidar contra a lei que obriga ao conhecimento, até onde ela mesma o permita, flexível que é, dado o relativo livre arbítrio. Mas, que sucederá, um pouco além da fronteira vencida, quando o ciclo de forçamento se tenha esgotado? Que acontecerá ao homem em si vencido, por tentar luta vitoriosa contra a lei de progresso contínuo? Convulsão pessoal para o homem, convulsão coletiva para as civilizações. Desordem espiritual, moral, mental, intelectual, material; desordem política, social e econômica – guerras!

O homem de qualquer civilização deve aos cleros organizados, noventa ou mais por cento de suas dores e atrofias progressivas. Quem dogmatiza e disso faz comércio ou meio de vida, nunca será amigo de seu semelhante, porque o bem está no progresso contínuo, no encontro do homem com o ESTADO BÁSICO, por identidade vibratória. Ora, sendo a regra clerical o ignorantismo por excelência, o conservadorismo idólatra, do mais espiritual ao mais material, que fará ela junto do espírito humano, sem ser talhá-lo para a treva e o retardamento? Não foi por nada que Jesus Cristo abandonou o templo, fazendo tudo quanto tinha que fazer nas ruas, nas praças e nos desertos, vindo ainda a ser pelos donos do templo preso, julgado e justiçado de modo infamante! As ordens clericais vivem em perene estado de beligerância contra a ORDEM DIVINA! Eis a dura verdade.

MARCANTE VINCULAÇÃO VIBRATÓRIA

A prece é um fenômeno que decorre segundo lei profundíssima em gênero, espécie, matiz e tom. Há qualquer coisa de infinitamente moral a embasá-la. E por isso mesmo é ampla ao infinito, na flexão infinita de sua complexidade. Nunca pude sondar bem, nem mesmo mediocremente, a um caso sequer. E dizem os mais conscientizados agentes das esferas superiores, os mais angelizados irmãos, que só o SUPREMO ESPÍRITO, Deus, a ESSÊNCIA DIVINA, poderia dizer de sua possibilidade intensiva, de modo total. Mas se nos deixa o mecanismo do fenômeno, de instante a instante extasiado ante a prodigalidade de seus efeitos de variada ordem, também é de saber que, por isso mesmo, nos tem ele preso pelos laços do mais sublimado penhor de alma. Não sei qual seja toda a força do pensamento como onda vibratória; mas sei que a prece a expõe de pronto em inelutáveis evidências. Gosto profundamente de atender a quem honra o ato de orar; sinto-me melhor ao lado de quem procura, acima de tudo, entrar por ela em relação com o PRINCÍPIO DIVINO. Respeito a nobreza daquelas almas bondosas que oram, sobre tudo, procurando amparar a dor e a miséria; mas, muito mais ainda a prece-trabalho de todos aqueles outros servidores do SENHOR FUNDAMENTAL, que o fazem através o esforço de esclarecimento das legiões humanas. Ensinar o conhecimento da VERDADE PRESENTE é a forma ideal de conduzir as legiões humanas ao estado de celestialização coletiva. O Planeta precisa desses apóstolos; a terra carece dessa semeadura; o homem singelo vive sedento dessa linfa sacratíssima.

Sem o pão do espírito, que outro pão não virá a faltar? E que pão será o do espírito, sem ser o verdadeiro auto-conhecimento? Quando o homem se sentir emanação divinal; quando se tiver na conta justa do que é em seus fundamentos; quando puser, por isso mesmo, a brilhar a lâmpada interna, então sim estará vencida a morte na vitória! O reino de Deus, o reino que não poderia jamais vir das mãos de segundos ou terceiros, menos ainda das daqueles que compram e vendem bugigangas sacramentistas, esse reino então exposto, eliminará da face da terra o carrilhão de trevas e lágrimas que a sulca de milênios. Nós vos falamos, irmãos em geral, em nome das leis eternas! O Espiritismo é o complemento da Obra Educadora de Jesus Cristo, o nosso Guia Planetário. No curso dos tempos tem enviado agentes instrutores de toda ordem, para todos os ramos e ângulos do pensamento e das necessidades em geral. Acolhei, pois, com simplicidade, raciocinando de modo elegante, sobre tudo o que se vos disser ou for transmitido. Há necessidade de fraternismo no mundo!

Mas vamos ao caso. Passou-se, mais uma vez, naquela casinha pobre que Jasmim transformou em celeiro de bens divinos. Nós, como de costume, fomos convocados à presença por um seu chamado mental, por uma prece que tecia, sempre, com os acordes mais santos de sua alma peregrina. E atendemos com a solicitude que mandam os chefes, sejam atendidos aqueles que se dando ao serviço do próximo, de si olvidam, cumulado ainda o ato atencioso, com o devotamento prazeroso de sempre.

Lá estavam, pois, no recinto pobre, sentados em redor de mesinha cujos anos de uso eram testemunhados pelos riscos, tales, desgastes, etc., cinco ou seis pessoas, sendo uma delas, uma senhora de uns trinta e cinco anos, presumíveis, atingida em cheio por impacto feroz de espírito dementado. Não agia de modo a lhe subtrair a inteireza da razão; mas, forçava de modo tal a organização magnética, que lhe suprimia mais de cinqüenta por cento da personalidade. Notava-se a oposição tremenda que lhe movia o agente oficial, o espírito senhor do organismo, fazendo que, de quando em quando, o intruso se visse compelido a dar descanso. Logo mais, porém, aproximava-se como que movido por estranho poder oculto. E a luta começava de novo, entre ambos os agentes, sibilando projeteis energéticos que se cruzavam, que se colidiam, que se pediam, mormente os da senhora encarnada, que se revelava em estado de exaustão. Nenhuma posse se dá, da parte de agente tenebroso, repentinamente. Há sempre um período preparatório, aquele que constitui o simbiótico, o prelúdio de contato. Pode custar mais ou menos a estabilizar-se, assim como seja o encarnado mais ou menos avesso ou adesivo aos propósitos e natureza do invisível. Mas, se há um porquê de fato a determinar a junção fatal, quem vence é o invisível, por esgotar as reservas do encarnado. Esgotadas as reservas energéticas, segue-se a simbiose mental e com ela até a perda total, por parte do encarnado, da sua característica pessoal. E o campo, assim, está em franquia para qualquer ordem de desfecho patológico, indo mesmo às deformações monstruosas e à morte.

Tudo é questão de saber-se do porquê determinante. Nada haja a tolher intervenção favorável. Porque se esta houver, expiacional será o fim!

Todavia, no caso em apreço, não tutelava o fenômeno tentáculo algum comprometedor. E vimos aparecer, em letras ou sinais luminosos, sobre a cabeça da senhora encarnada, coisa no sentido de auxílio imediato. Ora, em tais casos e com ordens de tal teor, tudo se torna fácil ao extremo, por não ter havido ainda invasão de elementos fluídos na organização cerebral do encarnado, por meio do veículo próprio que é a organização eletromagnética. Quando tenha chegado a estabelecer sua entrosagem em grande escala, então o serviço de re-equilíbrio impõe-se, através supressões, substituições e transubstanciações. Nestes casos operam maravilhas os passes, por meio de encarnados, e as águas fluidificadas, também em as quais faz-se salientar, em porcentagem, o fluído captado aos encarnados. O fluído animal humano, eletro-magnetizado, em grau moral superior, é o grande remédio em casos de ação imediata. De resto, uma vez afastados, o agente invisível e envenenador, a vítima pode recuperar-se muito bem por si mesma, pensando coisas boas, orando e vigiando. Não só o próprio organismo se torna fábrica de energias salutares, como, ainda pode conseguir com facilidade absorver do elemento cósmico o de que carecer para o re-equilíbrio necessário. Quando o desfecho deve dar-se de modo favorável, porque pressão cármica não esteja a forçar em contrário, meios sem conta podem vir em abono do fim único que é a cura. Caso contrário... Caso contrário, não se reparam grandiosos delitos com simples arrependimentos e pedidos angustiosos de perdão... Melhor fora pudéssemos evitar os erros mais graves.

Recebida a ordem pela forma já mencionada, procuramos agir. Um de nós foi em busca de trabalhadores de certa região semi-trevosa, para onde seria cambiado o infeliz dementado. Outro, como de hábito, usou de Jasmim para dizer o necessário por fazer. E outro foi impedir, por meio de vibrações potentes, que o dardejar inconsciente, mas venenoso, prosseguisse atingindo em cheio ao organismo da senhora, pela organização magnética. Porque nenhum espírito poderia atingir a quem quer do plano físico, diretamente. Age de conformidade e por intermédio do instrumento de que dispõe, que é o seu corpo mais denso e os elementos mais quintessenciados com que possa contar. Assim, também, o ser dono do corpo não domina diretamente, mas sim pelos veículos que são as gamas mais tênues, a organização eletromagnética, o perispírito, os gases orgânicos, os vapores, os líquidos, vindo por aí a dominar tudo. A dominação do que é mais sublime, na escala dos valores, portanto, dá-se sempre por ordem crescente, do mais intenso para o mais denso. O inverso é ressentimento sensorial.

Quando aquele trabalhador chegou, acompanhado de mais cinco elementos da falange socorrista de que nos servimos, foi o infeliz malfeitor retirado e imediatamente transportado ao lugar devido. Todavia, a senhora ressentia-se da relativa atrofia já operada pelos elementos fluídicos, pelas partículas sobrecarregadas de magnetismo venenoso. Porque a carga tende a descarregar-se normalmente, por devolução; e a forma pela qual se dá o fenômeno é o esvanecimento, sendo este o grande prejuízo, ou prejudicador, pela contaminação contínua. Cumpre, pois, depois da retirada do agente malfeitor, procurar sanear o campo. E a melhor forma é eliminar a base, o foco, o que de fluído venoso tenha sido infiltrado. Existem zonas alojantes mais próprias, como sejam a massa encefálica, o plexo, os vapores de sangue e o sistema liquoso. O cérebro, por via do imenso concentrado de correntes magnéticas, verdadeira turbina a captar e retransmitir a seu modo ou características próprias; o plexo, por ser o pólo armazenante do éter, do prana ou da energia cósmica; o sistema vaporoso, por ser todo e qualquer líquido um grande veículo, por natureza. E por fim, teremos a organização magnética alterada em favor da influência estranha, isto é, impondo a sujeição em geral.

E cumpre salientar que estamos frisando o superficial, pois os detalhes são profundamente infinitos em matizes, assim mesmo como cada um de nós é, como caso psicológico por excelência, um tom de matiz formando na vastidão infinita das espécies, que por sua vez, não passam de departamentos múltiplos da composição geral. Os tons hierárquicos são incalculáveis, para qualquer efeito; o que vale é que, sendo o gênero um só, e uma só a Suprema Lei, e também uma só a força do AMOR, havendo ordem de cura, de reparo, fazemos uso da Lei em sentido próprio, vindo a atingir o fim desejado. Perdem-se, é claro, por dispersão, por falta de precisão de cálculo, energias aplicáveis. Vão-se, naturalmente, sem ter operado o devido e possível, por terem sido potentes de mais ou de menos, ultras ou infras; mas, o que se acerta em grau ótimo basta para realizar a eliminação desejada, para operar a limpeza necessária. Milagres e mistérios não existem; como o Cristo expeliu maus elementos, e curou suas vítimas, sem entrar em detalhes, ficou considerado que aqueles fatores estariam a servi-lo. É preciso se acabe com a falsa interpretação, espontânea ou proposital que seja. Os cleros possuem no falso a fonte de rendas de que necessitam para sobreviver; e como locupletam-se através da ignorância das gentes, cumpre compreender que o problema só será resolvido pelo boa instrução, pela melhor educação. Há que atender, também, para a caudal de leviandades daqueles que, sabendo-se errados, que abusando do nefasto direito de duplicidade, de fingimento, atendem aos pseudo recursos absolvicionistas, aos infectos perdões humanos em face de crimes perpetrados contra a MORAL DIVINA, que de dentro está agindo por auto-cominação, e para com que lesões nada vale recurso algum interposto por quem quer, sem ser a purgação pessoal e devida. Não creiais que Jesus Cristo tenha dito tudo o que está ao alcance de vossas leituras; Jesus Cristo não veio ao mundo para ensinar a quem quer a subversão da ORDEM DIVINA. Agravos contra o princípio de equilíbrio interno, meus amigos, não são perdoáveis! São reparáveis, mas pelo mesmo agravante; isto é, o pecado só será desfeito pela ação recuperadora do próprio pecador! O resto é falsidade, falsidade que atinge o livro dos homens, mas que não poderia jamais conspurcar o SAGRADO LIVRO DA VIDA!

Posso falar, dos erros clericais, com inteiro conhecimento-de-causa; bem como poderia estender-me muito sobre o que de hipocrisias medram pelo mundo, em crentes falsos, fingidos, que só se valem das farsas idólatras ou igrejisticas, para servirem de couto às suas mazelas e dobrezas. Cumpre, sim, ensinar o mais certo e grave, para que os contumazes do vício se forrem cada vez mais de responsabilidades, vindo de si mesmos, por esforços de consciência, a guerrear de frente contra o lastro terrivelmente embalador. E nada digo contra o padre, seja de que credo ou seita for, pelas suas ações como homem civil; nada tenho contra ele, em matéria de ações que não sejam as doutrinárias. Não respondo por quem quer. Repito que me detenho no painel doutrinário, porque o que fazem é errado, é falso, ensinando o que foi organizado por homens, em estatutos, em dogmas, nada procurando fazer, menos ainda ensinar, daquilo que Jesus Cristo fez e ensinou.

Naturalmente, pensareis, esqueci-me da senhora atacada, pois não?

Não é o caso. Uma vez tendo-a livrado do opressor, cumpria iniciar processo terapeuta conveniente. E um de nós falou, por Jasmim:

– Ponham sobre a mesa um litro contendo água bem limpa.

Em seguida ao ato, depois de o litro cheio ter sido posto sobre a mesa pedida foi uma prece, com a condição de que cada um colocasse a mão espalmada sobre a mesa. Não sei se já é do conhecimento de quem me lê, sobre ser cada dedo emissor de uma espécie de fluído, ou de uma coloração própria. Também não sei se já sabem que cada matiz de qualidade, e de cor, aplica-se para efeitos diferentes, para atuação em ângulos precisos de atividade vibratória. Pois assim como cada pessoa, pertencendo a um matiz em hierarquia e coloração, tem oportunidade de agir com a precisão que outra de outro tom não teria, assim também os dedos, ou cada dedo, possui a sua característica emissiva, e conforme o caso, ou assim como julgarmos os pontos lesados, assim ocupamos mais uns e menos outros, os fluídos pelos dedos emitidos. Já disse que o problema é complexo.

Jesus Cristo ensinou a impor as mãos e a curar, como qualquer pode e deve ler, mas sem entrar em detalhes; e eu digo que, como espírito estudioso da questão, depois de dois mil anos, ainda não poderia detalhadamente falar, explicar, por ser tal mecanismo extremamente profundo. Uma coisa posso falar, porém; é que um pensar divinizado pelo desejo puro de servir, de ser simplesmente útil, bom relativamente, supera muitas ou quase todas as deficiências. Que força é o AMOR?

Com as mãos espalmadas sobre a mesa, e as mentes vibrando como só gente educada espiritualmente pode e consegue vibrar, tínhamos ao dispor turbinas de força fluídica a valer. Um de nós, captando fluído de um dos presentes, de espécie diferente, que era expelido pelas narinas, materializou o que pode daqueles que se vasaram pelas pontas dos dedos, tendo introduzido na água do litro. O borbulhar da água impressionava; e isso mesmo era muito interessante, junto ao ânimo da senhora por restaurar. O sugestivo não deixa de ser meia cura, por facilitar a auto-aplicação de poderes energéticos. Cada um de nós vive a captar e a elaborar, caracteristicamente, o fluído cósmico. Modificar o modo de pensar é modificar o sentido da caracterização, podendo passar do curativo ao venenoso e vice-versa. E quantas vezes a cura, a recuperação, não parte de onde se não cogita! Faz-se um cálculo, recomenda-se uma atitude, um medicamento; no entanto, lá pelo que vive na mente do individuo, a reação se processa por outras razões, por razões não computadas. Tremendo arcano de poderes é o espírito! Pudera! Pois não é emanação do SUPREMO ESPÍRITO? Não é partícula da DIVINA ESSÊNCIA? Não é departamento da FORÇA TOTAL? Não está em relação contínua com as potências energéticas do infinito?

A mulher, pois, saiu dali sorridente e feliz. Levava debaixo do braço um litro que valia por uma benção de Deus. Em caminho, vieram-lhe ao encontro um homem e três pequerruchos. Em vendo-a feliz, recuperada, apta às funções de esposa e mãe, o homem pôs-se a chorar de alegrias. As crianças, também, sem compreenderem aquele estado d’alma místico-patético, deram-se a choramingar. E os pais, e mais aquela gente que fora acompanhar a senhora ao paupérrimo recinto de Jasmim, passaram a sorrir. Os semblantes dos inocentes tornaram-se felizes como as imagens dos céus. E lá se foram, caminhos em fora, imensamente agradecidos, sem cismarem sequer, que muitos de seus parentes, habitantes dos países da morte, em suas companhias também caminhavam, dando graças ao Supremo Senhor.

Como são felizes os momentos que passamos ao lado dos encarnados, quando sabem transformar seus corações em templos de adoração a Deus, a Suas Leis, em Espírito e Verdade, fugindo ao máximo das perniciosidades formais e idólatras! Como é soberanamente belo o senso de Religião, de apego ao SAGRADO FUNDAMENTO, uma vez desenvolvido à base de respeito em face do mecanismo da VIDA! Como é sublime o Caminho do Senhor, por ser avesso a todo e qualquer tisne, seja o supersticioso, seja o exclusivista, seja o rotineiro, seja o mercantilista! Como é divinizante o Cristianismo, por não conter máculas estatucionais, sectárias, e sim por convidar a todos no sentido de em simplicidade de conduta, sem pretender títulos religiosistas, mais dar para poder mais ter! Como é doce aos supremos anseios da alma o poder lembrar, que os ensinos do Cristo foram à luz das necessidades vitais do homem, sem curvações nojentas, sem atitudes nauseantes, sem viciosidades que só podem interessar aos inconscientes da realidade extra-corpórea!

Vindo de poder falar à mesma coluna humana de todos os milênios, a quem foram apresentadas todas as Revelações, desde a Védica, quero a todos lembrar que Deus reside, antes de mais nada, nos fundamentos de tudo e todos. E que não existe modo outro de se O atingir melhor, sem ser pelos escaninhos do AMOR e da CIÊNCIA. O homem, pois, que busque o SAGRADO em si mesmo, que essa foi a recomendação máxima de Jesus Cristo.

AS PORTAS DO MUNDO FÍSICO

O Evangelho contém ensinos imensos de ordem espiritual, que a incúria dos profissionais da exploração religiosista tornaram de interpretação francamente idólatra e formal. Como iria o homem, primeiramente procurar o reino de Deus e sua Justiça, para em seguida ter o mais por acréscimo, sem ser em desabrocho de valores internos, de virtudes latentes? Os estatutos humanos, ditos religiosos, puseram a coisa em campo formal. E procurar tal reino significa comprar bugigangas ou fazer algumas curvações ridículas. Todo caso, modificou-se a lei básica por via da inconsciência humana? Não. O que é por Deus não se move. Evoluir, solver, compromisso d’alma, reparar faltas, completar programa, para tudo há lei, do mais genérico em suas propriedades ao mais específico de suas aplicações. Os filamentos da Suprema Determinação não são à mercê dos trampolinismos de quem quer.

Fui, pois, convidado a comparecer em recinto familiar radicado na crosta. Pensava ter que prestar algum serviço de ordem rotineira; mas, o imenso número de amigos ali reunidos, e a felicidade relativa reinante no ambiente, imediatamente fizeram-me antever coisas outras. E em meio a uma salva de palmas, recebi cumprimentos do chefe daquela comitiva.

– Pediu e vai ter, porque trabalhou para merecê-lo. Neste lar encontram-se dois agentes encarnados que lhe poderão conferir embalagem doutrinária favorável. Trazem n’alma os vestidos do alcance espiritual superior. São avessos, por hierarquia, aos formalismos idólatras de qualquer teor. E você beberá, dessa seiva educacional, desde a infância carnal. Quando homem, portanto, estará apto a desempenhar função esclarecedora. Como sabe, cada qual dá do que tem. E não é crime dizer, que nas hostes do Consolador, acham-se elementos de ambos os planos, que, por insuficiência evolutiva pensam, falam, sentem, vivem e ensinam o que não é melhor. Precisamos de agentes mais esclarecidos, de ambos os lados, para que o idolatrismo encontre barreira e o culto de Deus em Espírito e Verdade, em realidade fundamental, vá-se impondo e saneando o ambiente humano, também de ambos os lados.

Era uma manhã de sol. E como perguntasse por eles, tornou o bondoso instrutor:

– Estão lavrando a terra, pois são agricultores. Vamos vê-los...

Dentro do prazo que mal daria para começar a pensar, eis-nos ao lado de dois seres de mim dantes nunca vistos. Um homem jovem, uma mulher também jovem e de semblante desanuviado, e um menino de uns três anos, loiro, que brincava no chão, tendo por fundo a beleza da paisagem natural, da terra lavrada perto e dos matagais e campinas ao longe, por cima da qual formava, em tom de moldura, o filamento azulado das serras longínquas.

– Aí estão, Adão, seus futuros pais e um adorável irmãozinho. Não olvide o essencial, que é trabalhar pelo levantamento do padrão espiritual do Planeta. A grande maioria pensa que a vida na carne é para as folganças em geral. Deixa a riqueza do espírito por conta dos tropeços do bolso e do estomago, das vaidades em geral e dos falsos religiosismos imperantes. Não fora para progredir, para forçar a tanto, não conviria a quem quer reencarnar, não acha?

– Nem se diga, prezado mentor! Por constituir uma reencarnação, tão grande oportunidade o quanto perigo de queda, deve-se encará-la do ponto-de-vista o mais racional possível... Mas... Como poderia o encarnado tomar tão a sério a reencarnação, a viagem pelo plano perigoso da investidura carnal, sem conhecimento disso?...

Depois de encarar-me com profunda expressão de bondade, explicou o mentor:

– Não se esqueça de que, desde que REVELAÇÕES passou a necessitar a humanidade, todas elas o foram à base de mediunismo, de intercâmbio entre os dois planos da vida. Se homens inconscientes nunca faltaram no mundo, desvirtuando o sentido dos ensinos e o mecanismo pelo qual foram vindos, nada temos com isso, sem ser que redobramos sempre esforços, no sentido de concretizar, no mundo, o estabelecimento da base pura, do conhecimento racional das coisas e leis do universo. Como sabe muito bem, Jesus Cristo, a expressão diretora do Planeta, ao viver como homem entre seus irmãos, deu o mais frisante ensino exemplar, fazendo mediunismo nas ruas, nas praças, nos casebres, nos desertos, não tendo recebido dos corruptores da VERDADE, outra coisa que não fosse perseguição, prisão, julgamento e crucificação! Faça a si mesmo perguntas a tal respeito. É bom fazer isso, para efeito de pingar os is. É hora de despertar a mente do mundo!

– Procurarei ser um bom servo de Jesus e um agradecido amigo de todos. Reclamarei sempre a vossa assistência, no pedido que ora vos dirijo, para que me não faltem as vossas atenções. Tenho medo do passado, que sei pesar nos presentes da vida, em forma de reminiscências às vezes coercitivas.

– Quando você for homem, Adão, há de poder ler o que irá transmitir aos irmãos da carne, antes de a ela atar-se de novo, brevemente. E a grandeza dos panoramas do universo, as sublimidades do saber superior, sem dúvida eliminarão os esforços do passado delituoso. Pelos seus pais, pelos profetas ou médiuns, lhe traremos ao conhecimento a necessidade de leituras edificantes. Proceda bem, confie em Deus, em nós e em si mesmo. Nada há para temer, menos faça todo o esforço no sentido de querer transviar-se da rota do Senhor.

Recebi ordem de ficar na cama, daquele dia em diante. O tempo de liberdade devia usá-lo em transmitir informes. E espero que um dia, de fato, venha a poder ler, com os olhos de homem do país da carne densa, ao que termino de transmitir, graças a Deus, graças a Jesus Cristo, graças aos devotados amigos que hei conquistado, em tantas esferas de vida e aprendizados.

JUSTIFICATIVA?

Comumente costumamos dizer “se Deus quiser”, quando outra expressão não caberia, fossemos mais honestos funcionários do Senhor, que esta – “se Deus quiser e eu, por consciência do dever fizer por realizá-lo”. Isto porque, sem dúvida alguma, pesando sobre o TODO RELATIVO o TODO ABSOLUTO, numa demonstração plena de equidade dialética, o quanto determina o Senhor ao funcionário, também delibera este em favor da execução dos feitos. O sagrado direito de livre arbítrio é parte do SUPREMO DETERMINISMO. Uma lei incide sobre a outra e a ação mecânica se desenvolve harmônica, produzindo o bem e conseguindo marcar em favor dos supremos desígnios.

Ai daquele que se empenha em proclamar tanto o seu “se Deus quiser”, nada se empregando para a consumação da Soberana Vontade! Fiandeiro de nulidades é aquele que testemunha ao DETERMINISMO e solapa em si ao arbítrio funcional! Deus é REGRA e nós somos EXECUÇÃO, Deus é LEI e nós TRABALHO, Deus preside e quer e nós agimos e usufruímos.

Quem se anula como funcionário da VIDA ABSOLUTA prova o quanto é involuído. E aquele que lança mão dos bens da VIDA PLENA e os elabora, a fim do seu e coletivo bem, esse é que é servo fiel. Importa mais compreender o dever pessoal do que incidir tanto no “se Deus quiser”, tão bem exclamado e tão mal atendido. Urge a compreensão desta diretriz – um é o Senhor que manda e outros são os realizadores práticos da obra. “Se Deus quiser” é lei científico-moral, é consciência teórica do dever; ficar nisso é fraudar! E de fraudar está a humanidade farta, é reincidente milenar!

A consumação dos ideais de amor e justiça aguardam o serviço humano de realização prática. Nunca foi Deus a tolher os esforços dos seus funcionários; mas de sempre diz o homem “se Deus quiser”, relativamente a todos aqueles atos, que sabe muito bem, só dele homem dependem, para que na platéia encarnada haja mais decência e felicidade, e nos rincões da morte mais oportunidades de divinos gozos.

Depois de todas as REVELAÇÕES, sobre a montoeira de ensinos enviados pelo Divino Mestre em todos os tempos, mais de oitenta mil anos de sucessivos acréscimos norteantes, eis que o século vinte se marca na engrenagem instrutiva, como o século áureo. Porque, enquanto os outros tempos disseram empirismos sobre a vida de além túmulo, este século apresenta-se como o semeador de novas dádivas. Jorram sobre o homem as cataratas do Senhor, a linfa dos mais profundos reservatórios, para que a renovação espiritual se faça, à base de outras e mais possantes responsabilidades. Lêde ao que se anuncia na capa posterior deste livro, que tais obras valem por complementos aos ensinos de todos os tempos e missionários.

Fim.


[1] Vide o livro “ÀS MARGENS DO MAR MORTO”